menu_open Columnists
We use cookies to provide some features and experiences in QOSHE

More information  .  Close

Álbum de figurinhas: as Copas do meu mundo

24 0
14.06.2026

Eu colecionava figurinhas das seleções da Copa do Mundo que vinham no chiclete Ping Pong. A propósito, o chiclete Ping Pong ainda existe? Faz tantos anos que não vejo um que começo a desconfiar que ele pertence à mesma categoria dos dinossauros, dos telefones com discador e dos jogos sem VAR.

Naquele tempo, eu passava tardes inteiras tentando completar o álbum. Faltava um jogador da Escócia, apareciam três da Bélgica. Repetia-se um goleiro do Kuwait, mas nunca surgia aquele meia da França que eu procurava. A vida parecia muito simples: bastava trocar figurinhas com os amigos para corrigir as injustiças do destino.

Pensando bem, continuei colecionando figurinhas mesmo depois que o álbum acabou. Só que as novas são diferentes. De quatro em quatro anos, vou colando imagens num álbum invisível: não são jogadores nem escudos de seleções, mas salas de estar, vozes familiares, cães assustados pelos rojões, amigos chegando à porta, avós, pais, mães, filhos.

Folheando esse álbum, descubro que cada Copa deixou muito mais do que resultados e tabelas. Em cada página amarelada, um pedaço do mundo que existia naquele instante e que, por alguma razão, resolveu permanecer.

Vejo uma televisão em preto e branco tentando acordar para a vida. O ano é 1974. Sou muito pequeno; as imagens são vagas. Sei que estou no apartamento da Barão de Limeira, em São Paulo, ao lado de meu pai e do Vô Briguet. A imagem demora a aparecer. Quando a televisão é desligada, sobra apenas um ponto branco no meio da tela escura, como uma estrela solitária. O Brasil termina a Copa em quarto lugar, atropelado pelo carrossel holandês e pelo corredor polonês. Eu não entendia........

© Gazeta do Povo