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“Magnifica humanitas”: verdade, trabalho e liberdade têm de ser preservadas na era da IA

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26.05.2026

A primeira encíclica do papa Leão XIV, Magnifica humanitas, sobre a inteligência artificial, já foi bastante analisada e comentada desde o seu lançamento, ontem. E não duvido que muita gente tenha usado resumos e publicado infográficos feitos por IA – o Polzonoff me mostrou que alguém chegou a usar uma IA para tentar descobrir se a encíclica havia sido escrita com a ajuda de inteligência artificial (o resultado foi “100% humano”). É um texto que terá de ser lido várias vezes para ser suficientemente compreendido. Como li apenas uma vez, destaco o que achei de mais interessante nessa encíclica que não apresenta apenas a visão do papa e da Igreja sobre as IAs, mas acaba sendo também uma aula sobre a história e os princípios da Doutrina Social da Igreja – o que é bastante útil, já que Magnifica humanitas deve ser o primeiro contato de muitos com a DSI.

A Igreja Católica não é e nunca foi contra a tecnologia – aliás, muitas tecnologias essenciais para o desenvolvimento da agricultura na Idade Média, para ficar em apenas um exemplo, vieram dos mosteiros beneditinos. Mas a Igreja sempre afirmou que a tecnologia tem de estar a serviço do ser humano, e não o contrário. Leão XIV começa a encíclica falando da Torre de Babel, que é a tentativa de fazer tecnologia prescindindo de Deus. Isso nos leva a um primeiro ponto: a IA não é uma tecnologia moralmente neutra. “o discernimento ético não pode limitar-se a perguntar se utilizamos um determinado sistema para um fim bom ou mau, mas deve também questionar-se sobre a forma como foi projetado e que ideia de pessoa e sociedade está inscrita nos dados e nos modelos que o orientam”, diz o papa (104).

Verdade, trabalho e liberdade

Nesta primeira leitura, meu capítulo favorito foi o IV: “Salvaguardar o humano na transformação”, que apresenta a tríade “verdade, trabalho e liberdade” como chaves para uma boa utilização da IA em benefício da humanidade, e não como fim em si mesma; quem leu minha resenha de Encontro com a Inteligência Artificial – Investigações éticas e antropológicas, que publiquei anteontem no Tubo de Ensaio, minha coluna quinzenal de ciência e fé, sabe que eu tenho uma preocupação especial com as aplicações e consequências práticas da IA, daí esse capítulo da encíclica ter atraído mais meu interesse.

“As ditas inteligências artificiais não vivem uma experiência, não possuem um corpo, não passam pela alegria e pela dor, não amadurecem nas relações, não conhecem internamente o que significa amor, trabalho, amizade, responsabilidade.”Leão XIV, na encíclica Magnifica humanitas.

“As ditas inteligências artificiais não vivem uma experiência, não possuem um corpo, não passam pela alegria e pela dor, não amadurecem nas relações, não conhecem internamente o que significa amor, trabalho, amizade, responsabilidade.”

A verdade, aqui, não aparece apenas no sentido mais óbvio, por exemplo de evitar coisas como deep fakes, mas no sentido de que tecnologias moldam culturas. Quem domina a tecnologia, portanto, pode “convencer um significativo número de pessoas sobre qual é a verdade a respeito do ser humano, do mundo, do sentido da existência, da família e até mesmo de Deus” (133). Se quem desenvolve as IAs estiver imbuído de ideias equivocadas sobre esses temas, ou se já nem sequer acreditar na........

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