Sambando na cara do reinado
Era uma vez um rei que se julgava amado. Não amado como se ama um pai justo, ou um líder prudente, mas amado como se ama o sol: inevitável, incontestável, ofuscante. Convencido de que brilhava por mérito próprio, era conhecido como Sua Luminosidade — apelido que ele próprio inventara e repetia com modéstia ensaiada.
Morava em um palácio de mármore que se erguia acima da capital. Nos jardins, pássaros coloridos piavam hinos à sua grandeza, enquanto palmeiras balançavam em sua homenagem, ao som de ventos quentes. Nos salões, espelhos dourados multiplicavam a imagem real até parecer que o reino tinha vários sóis, todos com a mesma barba aparada e a mesma coroa reluzente.
Enquanto o monarca banqueteava iguarias importadas de terras longínquas, o povo pagava tributos cada vez maiores. De tempos em tempos, era convocado a aplaudir. E aplaudia — uns por hábito, outros por medo. O rei confundia o som das palmas com amor genuíno. “Vede como me adoram!”, dizia do alto da sacada, enquanto os súditos, lá embaixo, abanavam-se com boletos.
Um dia, ao acordar de um sonho onde desfilava sobre nuvens e tomado por uma inspiração que julgou divina, o rei teve uma ideia brilhante: encomendar um grandioso desfile de Carnaval em sua homenagem. "Será o maior espetáculo da História!", proclamou. "Eu serei o enredo vivo, e minha rainha sairá como destaque, sambando na cara de todo o reinado!"
Convocou então seus ministros — homens de fala macia e espinhas flexíveis — e anunciou:— Faremos o maior desfile de Carnaval que este reino já viu. E será em minha homenagem!
Tão vaidosos quanto o rei, e sendo........
