Anatomia de um quase golpe
Os golpes de Estado nunca começam com tanques diante do palácio presidencial. Essa é apenas a fotografia final, mas é, possivelmente, a única imagem que a maioria tem associada ao ato. O movimento decisivo ocorre antes, dentro da cadeia de comando, quando os homens que controlam as armas do Estado decidem se obedecerão às instituições ou a um projeto de poder – seja deles próprios ou de um líder. E é para esse ambiente fechado que o tenente-brigadeiro Carlos Baptista Junior conduz o leitor em Eu disse não: uma trincheira antigolpista (Autêntica). O livro é um testemunho em primeira pessoa, escrito por quem comandava a FAB e participou das reuniões em que a sucessão presidencial deixou de ser assunto eleitoral e passou a ser tratada como problema militar.
O retrato apresentado do presidente Jair Bolsonaro, durante os meses de crise, é mais inquietante do que o do conspirador frio que inventou uma farsa para permanecer no poder. O texto descreve um homem abatido, capturado por uma crença genuína de que o sistema eleitoral era falho e de que a eleição lhe seria, de alguma forma, subtraída. Testes e relatórios que não encontraram fraude não penetravam uma convicção transformada em verdade pessoal.
Com o fim do segundo turno das eleições, a derrota apertada produziu uma espécie de colapso em Jair Bolsonaro. O presidente foi ficando cada vez mais ausente, com raras aparições públicas. Com o tempo, transpareciam sua depressão, algumas enfermidades e total........
