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A alma brasileira não nasceu de Comte, mas veio da Cruz

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05.09.2026

Há semanas em que o Brasil parece caber inteiro dentro de uma urna eletrônica. Pesquisa sobe, pesquisa desce, candidato fala, adversário responde, marqueteiro interpreta. Descobrimos como votam os homens, as mulheres, os jovens, os velhos, os evangélicos, os católicos e cada faixa de renda. Daqui a pouco saberemos até a intenção de voto dos canhotos que tomam café sem açúcar.

É o rito da temporada. Faz parte da democracia e, confesso, gosto demais de política para fingir indiferença. Mas há momentos em que convém levantar os olhos da urna. O fim de semana da Independência é um deles.

Antes de perguntarmos quem governará o Brasil pelos próximos quatro anos, talvez valha uma pergunta anterior: que Brasil é esse que todos estão tão empenhados em governar?

Uma nação não nasce quando alguém assina um decreto. Antes de existir juridicamente, ela já existe na língua, nos hábitos, nas histórias que os avós contam, nos mortos que enterramos, nos nomes que damos aos filhos, nas festas, nas culpas, nas esperanças e, sobretudo, naquilo que um povo aprendeu a amar.

Em algum momento, parte da elite brasileira passou a imaginar que, para modernizar o país, era preciso também corrigir a alma brasileira

Em algum momento, parte da elite brasileira passou a imaginar que, para modernizar o país, era preciso também corrigir a alma brasileira

Independência, nesse sentido, não é apenas deixar de obedecer a outro governo. É o momento em que uma comunidade histórica reconhece em si mesma algo suficientemente próprio para reivindicar o direito de seguir seu caminho. Foi isso que ocorreu em 1822.

E talvez seja útil repetir uma obviedade que nossa memória republicana conseguiu embaralhar razoavelmente bem: a Independência não criou a República. O Brasil tornou-se soberano como monarquia e permaneceu assim durante 67 anos. A República viria apenas em 1889, em outro contexto, conduzida por outros homens e embalada por outras ideias.

Não tenho nostalgia infantil do Império. A escravidão, mantida entre nós até uma data moralmente escandalosa, basta para impedir qualquer retrato excessivamente romântico. O padroado e o regalismo também produziram interferências do poder político na religião que uma concepção madura de liberdade não deveria admitir. Minha melancolia com 1889 é outra.

Em algum........

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