Sacralidade pagã e o declínio da beleza cristã
Se toda a vida é vivida diante de Deus (coram Deo), então também toda música que cantamos sobre Deus e para Deus, seja no culto público, seja em contextos devocionais, domésticos ou culturais, molda aquilo que cremos, amamos e esperamos diante dele. Por isso, a questão da música não é secundária nem meramente estética; ela toca o coração da adoração, da vida espiritual e da formação da fé do povo de Deus. A tradição cristã sempre reconheceu que existe uma profunda unidade entre aquilo que a Igreja crê e aquilo que ela ora e canta: lex credendi, lex orandi. Ao cantar, a Igreja não apenas expressa sentimentos, mas confessa sua fé; por meio da melodia e da palavra, a verdade do evangelho é ensinada, assimilada e gravada no coração. Quando essa compreensão se enfraquece, a música corre o risco de deixar de apontar para Deus e passar a girar em torno do homem, de sua experiência, de sua catarse e de sua autoexpressão. Por isso, precisamos recuperar a sabedoria da tradição cristã sobre arte e beleza, para que toda música que se propõe cristã volte a servir à edificação da Igreja e à glorificação daquele que é, em si mesmo, o mais belo e digno de todo louvor.
Na tradição cristã, forjada pelos Pais da Igreja, pelos escolásticos e pelos reformadores, a arte não é uma expressão subjetiva do eu, nem um veículo para emoções desordenadas ou mero entretenimento sensorial. Ela é, antes, uma participação na ordem criacional divina, um reflexo analógico da beleza de Deus que conduz a alma à contemplação do Criador.
Tomás de Aquino, na Suma Teológica, define o belo (pulchrum) como aquilo que, ao ser visto, agrada (quae visa placent). Essa definição, porém, não é subjetiva. Para Tomás, o belo possui condições objetivas: ele expressa integridade ou perfeição (integritas), sem mutilação ou deformidade; proporção e harmonia (consonantia), pela qual todas as partes se ordenam em um todo coerente; e esplendor ou radiância (claritas), o brilho que faz a forma resplandecer e aponta para além de si, em direção ao transcendente.
Pseudo-Dionísio Areopagita, em Dos nomes divinos, já havia afirmado que a beleza divina é a fonte de toda beleza criada: uma superabundância de luz que desce hierarquicamente até as criaturas. A arte autêntica, portanto, não inventa formas por capricho humano, mas descobre e manifesta uma ordem preexistente. Por isso, ela é essencialmente teocêntrica e litúrgica: serve à glorificação de Deus, à instrução dos fiéis e à elevação da alma acima do mundano. Não é propaganda emocional, nem uma catarse dionisíaca, marcada por excitação desordenada e perda de sobriedade espiritual, nem celebração da espontaneidade carnal.
A questão da música não é secundária nem meramente estética; ela toca o coração da adoração, da vida espiritual e da formação da fé do povo de Deus
Na compreensão cristã do mundo, a beleza não é algo superficial nem meramente ligado ao gosto pessoal. Ela pertence à própria realidade criada por Deus e caminha inseparavelmente com a unidade, a verdade e a bondade. Por isso, a beleza não nasce do sentimento do momento nem de preferências culturais, mas reflete, de maneira real, a perfeição do próprio Deus. Ele é o Belo absoluto (Summum Pulchrum), pois nele há, em plenitude infinita, integridade e perfeição sem divisão (simplicidade perfeita), harmonia perfeita no amor do Pai, do Filho e do Espírito Santo (consonância trinitária) e luz plena que tudo ilumina e revela (claridade incriada).
Agostinho de Hipona, nas Confissões, descreve sua conversão como um encontro transformador com a Beleza eterna: “Tarde Te amei, ó Beleza tão antiga e tão nova...”. Para Agostinho, a beleza presente no mundo criado é um vestígio da Trindade (vestigium Trinitatis); quando contemplada com coração puro, ela conduz a alma para cima, em direção ao Criador. Mas quando a criatura é amada de modo desordenado, por sensualidade ou orgulho, a beleza deixa de elevar e passa a aprisionar, degenerando em idolatria.
De modo semelhante, Anselmo de Cantuária, no Proslogion, afirma que Deus é aquilo maior do que tudo o que podemos pensar. Essa grandeza inclui, necessariamente, a beleza suprema: toda beleza que existe na criação participa dela de forma limitada, mas Deus a possui plenamente, por essência. Por isso, qualquer........
