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O cancro do pulmão em 2026: da sentença à doença crónica

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03.03.2026

Escrevo este texto num momento de viragem. Se há duas décadas o diagnóstico de cancro do pulmão era recebido quase invariavelmente como um ponto final, hoje, em 2026, a medicina permite-nos colocar, em muitos casos, uma vírgula ou até um ponto e vírgula. Não vencemos a guerra, mas as frentes de batalha mudaram drasticamente.

Em 2026, o cancro do pulmão ainda continuará a ser uma das principais causas de morte por cancro em Portugal e no mundo, mantendo-se um enorme desafio para o sistema de saúde português, pela suas elevadas morbilidade e mortalidade, e também pelo impacto económico, social e emocional que provoca. As estatísticas apontam uma tendência preocupante: apesar de ligeiras melhorias na taxa de sobrevivência, o número total de diagnósticos ainda cresce, especialmente entre as mulheres. Essa mudança tem relação direta com os hábitos de consumo de tabaco nas últimas décadas, já que o tabagismo continua a ser o fator de risco mais significativo, com 85% dos casos diagnosticados em Portugal em 2026 a estarem relacionados com o consumo de tabaco — cigarro, charuto, cachimbo e dispositivos eletrónicos de vaporização. Assistimos agora ao que chamamos de "segunda vaga" epidemiológica. Se o consumo de tabaco tradicional baixou, enfrentamos as consequências a longo prazo dos novos dispositivos de inalação e do aquecimento de tabaco, cujos efeitos daqui a dezenas de anos ainda não conhecemos.

A poluição atmosférica e a exposição a agentes químicos continuam a ser fatores de risco adicionais. Embora Portugal apresente níveis de poluição inferiores aos de outros países europeus, as zonas urbanas e industriais ainda representam preocupação. A consciencialização ambiental tornou-se parte da luta contra o cancro: reduzir emissões, melhorar a qualidade do ar e promover hábitos de vida saudáveis fazem agora parte de políticas de saúde pública abrangentes.

No entanto há avanços significativos no primeiro quarto do século XXI. O avanço não foi apenas no tratamento, mas na deteção. Programas de rastreio direcionados a populações de risco — como fumadores crónicos e ex-fumadores com mais de 50 anos — mostram resultados positivos. Graças à integração de algoritmos de Inteligência Artificial, conseguimos hoje identificar nódulos milimétricos com uma precisão que escapava ao olho humano mais treinado.

Detetar um tumor em Estádio I significa, na maioria das vezes, uma cirurgia minimamente invasiva — muitas vezes robótica — e uma taxa de cura superior a 80%. O desafio atual já não é apenas técnico, mas social: garantir que os grupos de risco (fumadores e ex-fumadores) cheguem ao rastreio antes dos sintomas.

Em Portugal, o programa nacional de rastreio por Tomografia Computadorizada (TC) de baixa dose está finalmente a dar os primeiros passos com a implementação dos projetos piloto. Estes vão aferir os critérios de rastreio e a orientação dos vários casos detetados em Portugal. Já se coloca o desafio da adesão: Existe uma preocupação real das autoridades (como o Grupo de Estudos de Cancro do Pulmão) devido à baixa adesão histórica a outros rastreios (como o colorretal), o que exige campanhas de sensibilização mais agressivas em 2026.

Desde o início do seculo XXI que já não tratamos "o cancro do pulmão" de forma genérica. Este avanço tem tido um crescimento lento, mas seguro e em 2026 tratamos o tumor daquela pessoa específica.

Através da análise genética do tumor conseguimos mapear as mutações genéticas do cancro sem necessidade de procedimentos invasivos repetidos. Brevemente a amostra de tumor será substituída por uma simples análise ao sangue que deteta ADN tumoral circulante — a biopsia líquida.

Depois de conhecermos as alterações genéticas do tumor dispomos de fármacos dirigidos que atuam como "chaves" mestras para fechaduras genéticas específicas (como as mutações EGFR, ALK, RET, HER2 ou KRAS). A imunoterapia, que ensina o sistema imunitário a atacar as células malignas, e que foi iniciada há cerca de 15 anos no cancro do pulmão é agora a norma e não a exceção. Além dos inibidores do Check Point Imunitário, já utilizados amplamente no tratamento do cancro do pulmão outro tipo de imunoterapia está a surgir dos quais distingo as terapêuticas celulares adaptativas (CAR T-cell e TIL). Novas classes de fármacos como os Conjugados Anticorpo-fármaco (ADCs), ou os anticorpos bi específicos, estão a mostrar resultados promissores no tratamento do cancro do pulmão em fase avançada.

Para muitos doentes com doença avançada, o cancro do pulmão tornou-se uma doença crónica, gerida com comprimidos diários e uma qualidade de vida impensável no início do século.

Portugal enfrenta o desafio de continuar a investir em tecnologia, investigação e educação — não apenas médica, mas também social. A luta contra o cancro do pulmão é, em última análise, uma luta pela qualidade de vida, por políticas públicas eficazes e por consciência coletiva. Com ciência, solidariedade e informação, o país caminha para um futuro em que o diagnóstico de cancro do pulmão possa ser visto não como uma sentença, mas como o início de um caminho possível de tratamento e esperança.

Como médica, a minha mensagem aos leitores é de uma esperança pragmática. A prevenção da doença neste caso a evicção tabágica, é a primeira arma de tratamento. O rastreio permite diagnósticos mais precoces com maior esperança de cura. O medo não deve ser um obstáculo ao do diagnóstico.

Em 2026, o tempo continua a ser o nosso recurso mais precioso, mas a ciência está a dar-nos, finalmente, as ferramentas para o estender.


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