Por uma nova arquitetura, categorias e taxonomia dos cuidados de saúde
Imaginemos uma pessoa idosa com diabetes, insuficiência cardíaca, doença renal, dificuldade em andar e sintomas depressivos. A que serviço pertence? À Medicina Interna, à Endocrinologia, à Cardiologia, à Nefrologia, à Neurologia, à Ortopedia, à Fisiatria, à Psiquiatria, à Geriatria (que não existe em Portugal como especialidade independente)?
A resposta é: a todos e a mais algumas que não estão nesta lista. O problema é que o sistema continua organizado como se cada pessoa pudesse ser dividida pelas fronteiras das especialidades que têm os rótulos da Ordem dos Médicos.
As especialidades médicas foram sendo criadas para organizar o conhecimento, a formação e a diferenciação técnica. Continuam a ser indispensáveis. Mas tornaram-se também a base da organização funcional dos hospitais e confundem-se com ela: cada especialidade passou a corresponder a um serviço, que se constituiu como uma célula independente, com profissionais, orçamento, indicadores e cadeia de comando próprios. Cada serviço trata uma parte do problema, mas ninguém responde pelo percurso completo. A atividade é medida por atos e episódios de cada serviço, e a coordenação depende da iniciativa dos profissionais, muitas vezes em regime de carolice. As unidades de gestão intermédia limitam-se, na maior parte dos casos, a gerir as partes não clínicas da governação.
Por isso, a reforma das Unidades Locais de Saúde (ULS) não pode parar na criação do novo organigrama. Tem de ir mais fundo e tratar da forma como classificamos os cuidados. Enquanto pensarmos a realidade em termos de Cardiologia, Nefrologia, Cirurgia ou Medicina........
