Que horas são?
Quando foi passar o fim-de-semana a Madrid e sofreu muito com o jet lag, Aníbal percebeu imediatamente que era uma personagem inventada, e que só podia estar numa daquelas crónicas que partem de um pequeno episódio ficcional para demonstrar um argumento qualquer. É que, de facto, a gente não sofre com diferenças horárias de apenas uma hora. (Já agora, aproveito para fazer aqui um aparte sobre um sofrimento, esse sim, real: trata-se do transtorno que é infligido pela quantidade de vezes que quem usa a formulação “a gente” tem de ouvir que “agente é da polícia”. Certos defensores da boa gramática parecem convencidos de que expressões como “a gente não sofre” estão incorrectas, e deviam ser substituídas por “nós não sofremos”. Ora, na impossibilidade de pedir a esses linguistas amadores que vão chatear o Camões, costumo recomendar-lhes que vão chatear o Pessoa. Por exemplo, por ter escrito os versos: “A vida a bordo é uma coisa triste,/ Embora a gente se divirta às vezes”, “Deixaste cair a liga/ Porque não estava apertada.../ Por muito que a gente diga/ A gente nunca diz nada”, “Mostra-me como as pedras são engraçadas/ Quando a gente as tem na mão/ E olha devagar para elas”, “Leve o diabo a vida e a gente tê-la!/ Nem leio o livro à minha cabeceira./ Enoja-me o Oriente. É uma esteira/ Que a gente enrola e deixa de ser bela”, e o particularmente abominável “Toda a gente é interessante se a gente souber ver toda a gente”, entre muitos outros. Obrigado e bom dia.)
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