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O negócio de nos dar razão

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Gostamos muito de dizer que não vamos em cantigas. Até aparecer alguém a cantar precisamente a música que queremos ouvir. A partir daí, até fazemos coro.

Há um negócio que começa assim: dar-nos razão. O nosso medo é justificado, o nosso mal-estar tem uma explicação, a nossa falta de dinheiro resulta de ainda não conhecermos o segredo certo. Finalmente, alguém nos compreende. E, por coincidência, tem um produto, uma consulta, um curso ou uma oportunidade imperdível para nos apresentar.

Nos média e na internet há informação excelente. Mas também há um supermercado de verdades fáceis, prontas a consumir: um culpado, uma explicação e uma solução. Tudo arrumadinho. Pensar no assunto é que estraga.

Os algoritmos das redes sociais ajudam a servir a ementa: aquilo que vemos, comentamos e partilhamos influencia o que nos aparece a seguir. Esta personalização não é um certificado de verdade. Podemos estar a receber mais do que nos prende a atenção, não mais do que precisamos de saber.

Juntemos-lhe a nossa preferência por quem concorda connosco e temos os ingredientes para um circuito fechado: vejo, acredito, partilho, recebo mais do mesmo. No fim, "está em todo o lado". Pois está. No nosso lado.

Pense-se num assalto que abre o telejornal, reaparece nos comentários da noite e chega ao telemóvel em cinco versões diferentes. Ao jantar, já parece que o país está entregue à bicharada. Alguém pergunta se há efetivamente mais crimes, de que tipo e onde. “Mas tu não vês as notícias / a ‘internet’?” Vê. Só não está a contar o mesmo assalto seis vezes.

O sofrimento da vítima é real. A conclusão de que ninguém está seguro não vem........

© Expresso