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A sombra russa

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Há uma ideia confortável e, simultaneamente, perigosa de que Portugal, pela sua posição geográfica, dimensão e distância dos principais teatros de conflito, estará relativamente protegido das novas ameaças à segurança.É uma ilusão.

A guerra contemporânea não precisa de atravessar fronteiras para produzir efeitos dentro delas. Pode entrar por um cabo submarino, uma rede informática, uma conta falsa numa rede social, uma cadeia de fornecimento, uma dependência energética ou uma operação concebida para explorar uma fratura já existente na sociedade.

É precisamente esta combinação de meios militares e não militares, públicos e clandestinos, físicos e digitais, que caracteriza as ameaças híbridas. O objetivo não é necessariamente desencadear uma guerra aberta, mas enfraquecer um Estado, perturbar o seu funcionamento e limitar a sua capacidade de decisão. Portugal não constitui uma exceção e acreditar que está à margem deste fenómeno é, por si só, uma vulnerabilidade.

O Relatório Anual de Segurança Interna de 2025 identifica, entre as ameaças provenientes de atores estatais, a espionagem, a ciberespionagem, a sabotagem e atos dirigidos contra o Estado de Direito democrático. O documento enquadra estes riscos numa ordem internacional marcada pela guerra na Ucrânia, pela conflitualidade no Médio Oriente e por uma crescente competição estratégica. Não terá sido, por isso, indiferente que, em abril passado, o primeiro Conselho de Estado presidido por António José Seguro tenha abordado, entre outras matérias, a preparação nacional perante as ameaças híbridas.

Uma das maiores dificuldades está na atribuição. Nem sempre é possível determinar rapidamente quem está por detrás de uma operação, sobretudo quando esta combina meios clandestinos, intermediários, plataformas digitais e agentes que atuam de forma indireta. Ainda assim, quando existe uma intenção estratégica de longo prazo, os Estados continuam a assumir um papel central.

No espaço euro-atlântico, a Rússia constitui o exemplo mais evidente. A guerra contra a Ucrânia tem sido acompanhada por operações de influência, ciberespionagem, sabotagem e outras ações destinadas a enfraquecer o apoio europeu a Kiev e a explorar divisões políticas e sociais. Países da União Europeia e da NATO têm sido alvo de campanhas sistemáticas desta natureza.

As narrativas utilizadas tendem a repetir alguns padrões: desacreditar as instituições europeias, questionar a legitimidade da NATO, explorar divisões políticas internas e amplificar temas........

© Expresso