O aço, o clima e o futuro industrial da Europa
Há uma tendência crescente no debate europeu que merece ser contrariada com clareza: a ideia de que a descarbonização pode avançar desligada da realidade industrial do continente. Esta visão, embora sedutora na sua simplicidade, ignora um princípio fundamental: a transição climática só será bem-sucedida se for, simultaneamente, uma transição industrial.
A recente carta do primeiro-ministro português, Luís Montenegro, sobre a descarbonização da indústria europeia veio precisamente recentrar esta discussão. Ao sublinhar a necessidade de conciliar ambição climática com competitividade económica, esta posição reflete uma preocupação cada vez mais presente nas capitais europeias: a de que uma transição mal calibrada pode fragilizar a base produtiva da União e comprometer o seu futuro estratégico.
Neste contexto, o Fundo de Investigação para o Carvão e o Aço assume uma relevância que importa reconhecer. Longe de representar um resquício de uma Europa industrial do passado, este instrumento constitui hoje uma das ferramentas mais concretas ao dispor da União para transformar a sua base produtiva, tornando-a mais limpa, mais eficiente e mais competitiva.
O setor do aço continua a ser um pilar essencial da economia europeia. A sua presença estende-se a cadeias de valor críticas que vão da construção à mobilidade, da defesa à transição energética. Sem aço, não há infraestruturas, não há inovação tecnológica aplicada, não há autonomia estratégica. E sem investimento contínuo em investigação e desenvolvimento, não haverá uma indústria europeia capaz de competir num mercado global cada vez mais exigente.
A questão central não reside, portanto, na necessidade de descarbonizar. Essa é inequívoca. O verdadeiro desafio está em determinar onde e como essa descarbonização terá lugar.
Se a Europa avançar com políticas que aumentam os custos sem assegurar as condições necessárias à inovação e à adaptação industrial, o resultado será previsível. A produção deslocar-se-á para geografias com menores exigências ambientais, o que não reduzirá as emissões globais, mas apenas as transferirá. Simultaneamente, a União Europeia perderá capacidade produtiva, emprego qualificado e relevância geoeconómica.
É precisamente para evitar este cenário que instrumentos como o Fundo de Investigação para o Carvão e o Aço devem ser valorizados. Ao apoiar o desenvolvimento de tecnologias de produção mais limpas, ao promover a eficiência energética e ao incentivar novos processos industriais, este fundo permite concretizar uma ambição essencial: produzir melhor, produzir de forma mais sustentável e continuar a produzir dentro do espaço europeu.
A posição recentemente expressa por Portugal aponta nesse mesmo sentido. A transição climática não pode ser dissociada de uma estratégia industrial sólida e coerente. Não se trata de estabelecer uma escolha entre ambiente e economia, mas de compreender que ambos são interdependentes. Uma Europa sem indústria será inevitavelmente uma Europa com menor capacidade para liderar a transição climática.
Este debate ganha ainda maior relevância num contexto internacional marcado por uma competição crescente entre grandes potências. Os Estados Unidos e a China estão a investir de forma consistente na reindustrialização e na liderança tecnológica. Perante este cenário, a Europa não pode optar por um caminho de retração produtiva. Deve, pelo contrário, afirmar uma estratégia baseada na inovação, no investimento e na valorização do seu tecido industrial.
O Fundo de Investigação para o Carvão e o Aço é um exemplo claro de como essa estratégia pode ser concretizada. No entanto, para que o seu potencial seja plenamente realizado, é necessário integrá-lo numa visão mais ampla, que articule política climática, política industrial e autonomia estratégica.
A transição verde representa uma oportunidade histórica para a Europa, mas o seu sucesso dependerá da capacidade de garantir que essa transformação não implica abdicar daquilo que sustenta a sua prosperidade. No final e feitas as contas, a verdadeira soberania europeia continuará a depender da sua capacidade de produzir.
