Incêndios rurais: o problema não é o fogo, é a paisagem
Todos os Verões, o país repete o mesmo ritual. Arde, chora-se a perda, contabilizam-se hectares, activam-se meios de emergência e promete-se que «para o ano será diferente». Passado o Inverno, pouco muda. O problema dos incêndios rurais em Portugal não é falta de meios de combate. É excesso de território mal planeado.
O fogo sempre fez parte dos ecossistemas mediterrânicos. Durante milhares de anos, a vegetação, os solos e a fauna evoluíram em convivência com regimes de fogo de baixa a média intensidade. O problema não é a existência do fogo. O problema é a paisagem que construímos nas últimas décadas.
Criámos paisagens contínuas, homogéneas e abandonadas. Eliminámos descontinuidades, simplificámos sistemas produtivos e concentrámos espécies altamente inflamáveis em grandes manchas. Abandonámos práticas agrícolas e silvo-pastoris que estruturavam o território e fragmentavam o combustível.
O resultado é previsível: acumulação contínua de biomassa seca e incêndios cada vez mais violentos. Quando estas paisagens ardem, não ardem como sistemas ecológicos adaptados ao fogo. Ardem como depósitos de combustível. A temperatura sobe para níveis destrutivos, os solos
perdem matéria orgânica, a........
