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PPP para a floresta portuguesa

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26.03.2026

Portugal continua a enfrentar incêndios florestais com uma abordagem excessivamente reativa, centrada no combate aos fogos em vez da sua prevenção. O investimento maior é feito e anunciado com pompa e circunstância para os meios e nunca numa fase anterior. Esta estratégia tem revelado limitações persistentes, sobretudo num contexto de alterações climáticas e crescente pressão sobre o território.

Uma mudança de paradigma é necessária: integrar de forma estruturada as empresas de base florestal na prevenção. Estes agentes estão diariamente no terreno, conhecem o território, têm acesso a zonas críticas e podem atuar como uma rede de deteção precoce altamente eficaz. A sua proximidade e capacidade operacional permitem reduzir o tempo de resposta.

Um fator decisivo na resposta e combate necessário aos fogos.

Em Portugal, são milhares os produtores florestais equipados e a sua integração num sistema articulado com o Ministério da Administração Interna (MAI) e a Proteção Civil permitiria reduzir o tempo de deteção e alerta.

Uma variável crítica no ponto inicial.

A evidência empírica demonstra que os primeiros minutos são determinantes para evitar a escalada de um incêndio.

A criação de Parcerias Público-Privadas (PPP) no setor florestal surge como um modelo viável para operacionalizar esta integração. Os privados poderiam assumir funções de vigilância, manutenção e apoio logístico, enquanto o Estado garantiria enquadramento, coordenação, incentivos e supervisão. Trata-se de um modelo de responsabilidade partilhada, já testado noutros contextos internacionais.

Na Califórnia, empresas privadas, incluindo utilities energéticas e operadores florestais têm responsabilidades diretas na mitigação de risco, incluindo:

gestão de combustíveis (fuel management);monitorização contínua com recurso a tecnologia (satélite, sensores, drones); equipas próprias de resposta rápida;programas de prevenção em colaboração com autoridades públicas.

Este modelo assenta em princípios de responsabilidade partilhada e accountability regulatória. Embora o contexto português seja distinto - fragmentação fundiária, menor escala empresarial, os mecanismos de coordenação e corresponsabilização são transferíveis.

A floresta é um ativo estratégico nacional, com relevância económica, ambiental e territorial. A nossa tem um peso de cerca de 3% no PIB, com um valor económico de mais de cerca de €8 mil milhões. Investir na prevenção não só reduz custos futuros, como aumenta a resiliência do país. Um projeto piloto permitiria testar este modelo com métricas claras, avaliando o seu impacto real na redução de ignições e área ardida.

Apesar da tradicional resistência ideológica às PPP, este não é um debate sobre privatização ou ganhos económicos, mas sobre eficácia na prevenção e proteção de um bem público essencial: o território e o património natural.

A questão central deixa de ser se o setor privado deve participar e passa a ser como estruturar essa participação de forma eficiente, mensurável e alinhada com o interesse de todo o país.

Não podemos perder mais tempo.


© Expresso