A IA e o desencantamento produtivo: uma oportunidade para a Europa?
A IA pode ser interpretada como o culminar da racionalização weberiana - eficiência, previsibilidade, lógica instrumental - mas ameaça aquilo que a racionalização prometia servir: a autonomia humana. Campolo e Crawford chamam-lhe "determinismo encantado": uma linguagem mágica que apresenta os algoritmos como sobre-humanos e, ao mesmo tempo, protege os seus criadores de qualquer responsabilização. Não é por acaso que os líderes das grandes tecnológicas se aproximam da administração Trump — só regimes autocráticos conseguem gerir uma rutura social em que os algoritmos substituem rapidamente o trabalho humano.
Por detrás deste cenário está a ideia de que estamos numa corrida para alcançar a inteligência artificial geral (AGI). Todo o discurso e todos os investimentos só fazem sentido a partir desta ambição — incluindo o argumento de que regular a IA é apenas oferecer vantagem a regimes autocráticos. A OpenAI define AGI como "sistemas autónomos inteligentes capazes de superar os humanos em qualquer trabalho de valor económico". A parte decisiva da definição é a ideia de que o trabalho humano será substituído por benefícios económicos.
Defendo uma visão distinta, a que chamei "desencantamento produtivo": a ideia de que os sistemas de IA devem ser tratados como ferramentas que ampliam as capacidades humanas, em vez de as substituir. Para compreender o que isto implica na prática, vale a pena revisitar as últimas três décadas da computação. Cada grande vaga tecnológica gerou o mesmo padrão: hype inicial, concentração de investimento em infraestrutura e, depois, um período prolongado em que a transformação real emergiu de empresas que não tinham construído a infraestrutura, mas perceberam como ela alteraria o trabalho, os negócios e a vida social.
O computador........
