Quem tem medo de escrever bem?
“Toda a poesia é luminosa, até
(Eugénio de Andrade)
Os conselhos repetem-se: evitar travessões, reduzir conectores, fugir a certas construções sintáticas ou rejeitar os dois pontos para que um texto não pareça escrito por Inteligência Artificial (IA). Hoje em dia, escrever bem voltou a despertar velhas suspeitas. Muito antes da IA, alunos que escreviam excecionalmente bem já eram questionados sobre se teriam tido ajuda de alguém. Há, por assim dizer, uma mudança de suspeito.
Enquanto professora de Português e formadora, admito que já me aconteceu hesitar ao usar o travessão, mesmo que continue a ensinar este sinal de pontuação. O mesmo acontece com os dois pontos e outros sinais auxiliares de escrita.
Ensinamos formas de sistematizar o pensamento, e agora sugere-se evitá-las para que não sejam associadas à IA. Obviamente que esta última não as inventou. Foi treinada com milhões de textos e passou a reproduzir regularidades linguísticas que, durante séculos, fizeram parte do ensino da escrita. Está em curso uma transformação preocupante. Confundem-se valiosos recursos linguísticos com uma assinatura tecnológica.
O debate deveria, pois, alargar-se. Não é demais dizer-se que os mecanismos linguísticos, atrás referidos, não são arbitrários. Respondem a necessidades reais de estruturação do pensamento e de clareza expositiva, enunciados como critérios de avaliação no Exame Nacional de Português. Deixar de os usar para que os textos não sejam vistos como marcas de IA é, no mínimo, perverso.
Compreende-se que se optem por determinadas........
