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A ilusão da calma na crise entre os EUA e o Irão

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27.04.2026

Períodos de aparente calma no Médio Oriente são frequentemente os momentos mais propensos a erro de leitura estratégica. A questão central na crise entre os Estados Unidos e o Irão já não é apenas saber se a confrontação diminuiu de intensidade. É perceber se o Golfo está realmente a caminhar para uma nova ordem ou se está apenas a entrar numa fase mais subtil, mais internacionalizada e mais reversível de instabilidade. Para já, a resposta aponta para a segunda hipótese.

O que está a emergir não é uma estabilização clara, mas uma forma mais gerida de incerteza. A violência visível pode diminuir sem que o problema estratégico de fundo seja removido. A intensidade pode baixar sem que surja um novo equilíbrio. É essa a distinção essencial. A possibilidade de uma redução mais duradoura das tensões não pode ser excluída. Mas continua a ser prematuro tratá-la como o cenário de base.

É precisamente aqui que a crise começa a ser mal lida. Quando o ruído militar baixa, cresce a tentação de interpretar a fase seguinte como o início da estabilização. Mas uma crise pode tornar-se menos visível sem se tornar menos estrutural. Pode deixar de se exprimir através de confrontação aberta e passar a exprimir-se através de uma combinação de pressão seletiva, diplomacia condicionada e vulnerabilidade persistente. O risco não desaparece. Muda de forma.

É também por isso que esta crise já não pode ser compreendida como um confronto estritamente bilateral entre Washington e Teerão. Quando os fluxos energéticos, a navegação comercial, os mercados internacionais e a estabilidade regional mais ampla entram na equação, os custos da escalada deixam de poder ser politicamente contidos num único teatro. A crise alargou-se porque os seus custos se alargaram. Isso não significa que a situação se tenha tornado mais segura.........

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