As perguntas certas e as lições erradas no Médio Oriente
A ideia de que a guerra entre o Irão e os Estados Unidos era inevitável pertence a uma categoria de construções históricas que adquirem a sua aparência de certeza precisamente quando já não deixam espaço para contestação. A linearidade que propõem não descreve o real. Reorganiza-o sobre um espaço feito de hesitações, desvios e decisões contraditórias. O que hoje surge como destino foi, durante muito tempo, apenas uma sequência de escolhas imperfeitas.
A relação entre os dois países não começa como antagonismo, mas como um espaço difuso de reconhecimento, marcado por distância geográfica e leituras incompletas. Antes de qualquer eixo estratégico, existiam projeções assimétricas. A Pérsia era entendida como uma extensão de uma continuidade imperial, mais do que como uma entidade política plenamente autónoma. Os Estados Unidos surgem numa região já ocupada por outras potências, onde o espaço estratégico estava estruturalmente condicionado. Entre ambos, não existia nem afinidade consolidada nem hostilidade formalizada, apenas perceções e muitas perguntas.
É mais tarde que a cronologia se transforma em narrativa coerente. Mesmo então, essa coerência é em larga medida retroativa. A presença americana no Irão começa indiretamente, através de comércio, educação e assistência técnica, sem um desenho estratégico unificado. O teor da relação só se torna legível quando começa a consolidar-se sob pressão tanto externa como interna. A Guerra Fria introduz uma lógica de estabilização que sustenta o Xá, Mohammad Reza Pahlavi, mas simultaneamente corrói a base social que ditará o seu fim.
O ponto de inflexão de 1953 não funciona como origem automática da hostilidade, mas como uma reorganização estrutural das perceções. O golpe contra Mossadegh, conduzido pela CIA e pelo MI6, fixa uma memória política de interferência que atravessa regimes e políticas externas, permeando a própria sociedade. Do lado iraniano, consolida-se a ideia de soberania vulnerável. Do lado americano, reforça-se a convicção oposta de que a........
