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A morte da ideologia não garante a democracia

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04.05.2026

A guerra entre os Estados Unidos e o Irão já não pertence ao domínio da confrontação militar. Transformou-se numa engrenagem de reordenação regional cuja amplitude ultrapassa o campo de batalha e atravessa as estruturas energéticas, diplomáticas e estratégicas do Médio Oriente. O conflito deixou de ser um episódio para se tornar um processo. E os processos, ao contrário dos episódios, criam realidades que sobrevivem aos seus protagonistas.

A estratégia americana assenta numa lógica conhecida: atingir a base financeira do adversário até que a pressão económica produza efeitos políticos internos. O petróleo surge, nesse cálculo, como o ponto de maior vulnerabilidade. Reduzir exportações, saturar a capacidade de armazenamento, impor cortes de produção e converter o desequilíbrio económico em erosão institucional. A teoria é linear porque pressupõe uma relação direta entre escassez material e fragilidade política. A prática, no caso iraniano, nem tanto.

Essa resistência não foi improvisada. Foi construída ao longo de décadas em que o país operou sob diferentes regimes de sanções, bloqueios e isolamento financeiro. O Irão não apenas aprendeu a sobreviver sob pressão, como desenvolveu uma infraestrutura paralela capaz de a absorver. Petroleiros convertidos em armazenamento flutuante, cadeias clandestinas de distribuição, descontos seletivos a compradores estratégicos e ajustamentos técnicos na produção compõem uma economia de sofrimento altamente sofisticada. O bloqueio condiciona, mas não paralisa. E essa diferença altera por completo a lógica do confronto.

Quando a pressão externa deixa de produzir colapso imediato, o centro da análise desloca-se inevitavelmente para o interior do regime. É precisamente aí que a expectativa ocidental tende a falhar. A arquitetura política iraniana foi desenhada para suportar crises prolongadas, liderada de facto por Vahidi ou Ghalibaf. A Guarda Revolucionária articula-se como braço militar, eixo económico e instrumento ideológico, enquanto a narrativa de resistência converte a adversidade em legitimidade. O cerco externo, longe de fragmentar o sistema, tende a consolidá-lo. A história mostra que regimes cercados raramente cedem perante ameaças existenciais.

Mas o problema não reside apenas na........

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