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Humildade epistémica e água benta – não chega cada um tomar a que quer

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09.04.2026

Em 1847, Ignaz Semmelweis, um médico húngaro de apenas 29 anos a trabalhar em Viena, concluiu que algo tão simples como a desinfeção das mãos por parte do pessoal médico entre pacientes permitia diminuir os níveis de mortalidade das recém-mães até 10 vezes. A ideia foi à época rejeitada e Semmelweis foi ridicularizado, acabando por ser colocado num asilo, onde morreu pouco tempo depois.

Porque é que uma ideia aparentemente tão simples e com um potencial impacto tão significativo não vingou de imediato? O que é que podemos aprender com esta história e como é que ela se liga às dificuldades que a nossa democracia atravessa nos dias de hoje?

As razões pelas quais a aparentemente óbvia descoberta de Semmelweis foi rejeitada residem na nossa biologia. Os seus colegas, algumas das mentes mais brilhantes da época, não foram capazes de compreender que estavam sujeitos, ao agora chamado “Reflexo de Semmelweis” — a tendência que o nosso cérebro tem para combater uma informação que contradiz as nossas crenças — e ao viés da autoridade, a nossa tendência para aceitar como verdade absoluta a opinião de alguém apenas porque essa pessoa ocupa uma posição superior ou tem prestígio, ignorando os factos em si.

E porque é que isto acontece? A resposta está na nossa evolução. Durante milénios, a sobrevivência dos nossos antepassados dependia de decisões rápidas e não de análises complexas. O nosso cérebro evoluiu para poupar energia, criando atalhos mentais (as chamadas heurísticas). No ambiente hostil em que os nossos antepassados viviam, confiar na autoridade do líder ou manter a coesão da tribo ignorando dissidentes eram estratégias vitais. O problema é que o mundo mudou radicalmente, mas o nosso software biológico continua a ser o mesmo: temos um cérebro desenhado para fugir de predadores a tentar gerir a complexidade de uma democracia moderna.

Esta cegueira cognitiva tem um preço elevado para a qualidade da nossa democracia. Uma sociedade democrática saudável depende da capacidade dos seus cidadãos de avaliar argumentos de forma honesta. Quando os nossos vieses tomam o controlo, o debate público deixa de ser uma busca por soluções e passa a ser uma guerra de trincheiras. Deixamos de ouvir o "outro” porque o nosso cérebro já o rotulou como "inimigo” ou "errado” antes mesmo de ele abrir a boca. O resultado é uma polarização paralisante, onde a verdade se torna secundária em relação à lealdade ao grupo.

A história de Semmelweis ensina-nos que a inteligência, por si só, não é um antídoto contra o erro. O que faltava aos médicos de Viena era humildade epistémica: a consciência de que o nosso cérebro tem "pontos cegos" biológicos que precisam de ser monitorizados.

Para proteger a nossa democracia, precisamos de levar esta lição para as escolas. É fundamental que ensinemos às nossas crianças não o que pensar, mas como o cérebro pensa. Precisamos de uma "literacia dos vieses". Tal como ensinamos os alunos a lavar as mãos para evitar infeções, devemos ensiná-los a "lavar o pensamento" — a questionar as suas certezas automáticas, a procurar fontes contraditórias e a desconfiar de respostas fáceis.

Se não educarmos as próximas gerações para reconhecerem o seu próprio "Reflexo de Semmelweis", continuaremos a viver numa sociedade que prefere o conforto das suas ilusões ao desconforto das verdades que nos podem salvar. A saúde da democracia, tal como a das pacientes de Semmelweis, começa na higiene com que tratamos a informação que nos chega às mãos.

Esta coluna de opinião resulta de uma parceria entre a Geração E e a Associação Próxima Geração. A Próxima Geração é uma associação cívica multipartidária que promove a participação democrática dos jovens. As opiniões expressas neste artigo são da exclusiva responsabilidade do autor e não representam necessariamente a posição da associação.


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