Gramsci e Marcuse estão vivos pela palavra de Augusto Santos Silva
Há quem pense que Karl Marx morreu com a queda do muro de Berlim, que a sua dialética se terá extinguido perante a realidade de abundância que a segunda metade do século XX trouxe ao mundo ocidental. Porém, nem Marx está morto, porque ele é filosoficamente interessante, porque atravessou todas as ciências sociais e o seu pensamento é mais profundo do que parece, nem as declinações marxistas, que se manifestaram nos últimos cem anos, deixaram de aí estar e com várias roupagens.
Quando se constatou, nos anos 20 do século passado, que o marxismo de concretização leninista e estalinista se tinha transformado em ferramenta de terror, um intelectual comunista italiano, de nome Antonio Gramsci, deslindou e fez renascer o pensamento do senhor das barbas.
Gramsci viveu pouco, lutou contra o fascismo italiano, foi preso e durante esses anos de clausura escreveu a bíblia de uma parte da esquerda do tempo que vivemos.
A sua construção teórica é simples de explicar – como os proletários não fizeram revoluções, como o comunismo soviético se transformou num regime de terror pior do que as monarquias absolutistas, era necessário desenvolver a revolução a partir da educação, da comunicação social, da cultura, das igrejas. Em suma, era preciso vencer a hegemonia cultural que a burguesia infligia às sociedades.
Foi Gramsci quem concebeu o conceito de intelectual orgânico. Ao contrário do intelectual tradicional que come à mesa do orçamento, este novo tipo, apesar de também comer na mesa do mesmo orçamento, surge ou vive com a classe trabalhadora e tem como grande missão a organização das massas, dar-lhe consistência no propósito e assumir-se como voz perante o poder. Era a longa guerra de posição que ia muito além da previsão original de Marx de se ocuparem as fábricas ou da concretização de Lenine de invadir o Estado.
A Segunda Grande Guerra pôs de lado o pensamento de Gramsci. A afirmação posterior de dois blocos é nítida – o das democracias ocidentais opõe-se ao das ditaduras vermelhas onde o marxismo-leninismo só conseguiu manter-se pelo terror.
Ainda na década de 1930, nasce a Escola de Frankfurt e com ela a Teoria Crítica. Horkeimer e Adorno dão uma segunda leitura de Gramsci, consagram a contestação ao uso da ciência e da tecnologia como ferramentas de dominação, reinventam o fetichismo da mercadoria para nele encaixam a cultura de massas.
Em boa verdade, a Teoria Crítica........
