Paulo Núncio, o anti-woke
A entrevista que Paulo Núncio deu ao Expresso há dias mostra-nos o que já se suspeitava: o presidente do grupo parlamentar do CDS passa mais tempo a ter opiniões do que a estudar. O resultado é uma conversa de café, ou de estádio da Liga 3, mas com gravata posta à volta do pescoço.
Núncio, o anacrónico Núncio, depois de declarações demasiado anacrónicas sobre a IVG, foi posto de castigo pela própria Aliança Democrática. Montenegro, já se sabe, volta e meia gosta de fingir que não é parceiro dos seus parceiros. Que o diga Gonçalo da Câmara Pereira, de quem o primeiro-ministro também se envergonhou. Ora, rompido o silêncio, eis Núncio a pasmar com o que diz: desta vez, quer “modernizar” a constituição. Assim se usam verbos com conotação positiva sem se dizer o que se quer. Vamos percebendo que o deputado trata as palavras como adornos. E continuou: quer que a Constituição deixe de ser “ideológica”, ou seja, quer o documento à sua medida, que entende como neutra e fim. Estamos nisto há muitos anos: a direita gosta muito de pôr o adjectivo “ideológico” nas coisas que quer refutar. De um lado, a rigidez; do outro, a ideologia subjectiva? A política passa a dividir-se entre técnica e ideologia? E, adivinhe-se, a técnica é desta direita com pó em cima, ainda que não faça um esforço por abrir um livro ou ler um artigo até ao fim. Ao querer a Constituição “neutra”, Núncio sugere uma política sem ideologia, coisa parecida com bacon vegetariano.
Na mesma entrevista, o deputado afirma querer romper com o progressismo. Lemo-lo e ouvimos a voz de Ventura a chorar por um Salazar ou três. Com ele, temos a certeza de ter quem nos puxe para trás: o país, um atleta a correr livre; Núncio, um saco de areia às costas para que vá mais devagar. E, como não podia deixar de ser, lá se põe em guarda na luta contra esse mal maior – o wokismo, pois claro. Por parte deste defensor da pátria, não se arranjava um termo em português? Chateia-me ter de pôr itálicos nas crónicas. Mas chateia-me mais ainda que tenha tanta voz pública, voz com megafone, quem não tem um pingo de rigor ou honestidade, quem não sabe sequer do que é que fala. Numa entrevista inteira, ao declarar guerra ao wokismo, Núncio não se deu ao trabalho de dizer o que era isso. Inventou um antagonista abstrato, sabendo que nomear sem dizer ao que se vem ajuda a criar um inimigo, e é de inimigos que se faz este CDS, sempre a cavalgar, como o compincha Chega, contra “a ideologia de género”. Que será isso? Ninguém sabe, porque é quem usa a expressão que impõe uma ideologia, projectando preferências pessoais como norma política, no casamento, na interrupção da gravidez, na eutanásia. Na vida, portanto. Repare-se que estamos em 2026 e Núncio ainda consegue ser contra o casamento entre pessoas do mesmo sexo – híbrido de Iago de Shakespeare e de Miss Havisham de Dickens, que são das personagens mais preocupadas com a vidinha dos outros.
Esta direita anacrónica é isto: espécie de talibã ocidental que tenta pôr o Estado laico sob saque do seu Cristianismo performativo, usando a lei para impor o fanatismo religioso aos outros. Núncio quer combater o wokismo, mas sabe lá bem o que combate. Agora que não está ocupado a criar empresas fictícias na Madeira, quer meter o nariz na família alheia, dizer a mães e a pais como têm de lidar com os filhos e tratar de assuntos de saúde na pacatez do seu gabinete desinformado. Quer legislar sobre assuntos que desconhece, sobre gente com quem nunca falou. Enche a boca com um pretenso discurso de defesa das crianças e depois ataca-as da placidez do seu status. E defende a família, a família, a família, sem perceber que não têm de ser todas iguais – só por isso, já ataca as outras. A família é uma performance na boca desta gélida direita, que tanto acha que a disciplina de Cidadania tem mão do Estado a mais e que é aos pais que cabe decidir sobre o encaminhamento dos filhos quanto acha que, afinal, o Estado tem de intervir e a voz dos pais tem de estar sossegadinha.
É trágico estarmos num país em que alguém como Núncio é líder parlamentar de um partido da coligação do governo. Também é trágico que Pedro Pinto seja o líder parlamentar do segundo partido mais votado. É o reflexo de um país que parece não se importar com um grau elevado de mediocridade, que parece incapaz de ascender a mais – mais rigor, mais estudo, mais abrangência, mais bondade. Olha-se para uma parte colossal do parlamento e não se vê inspiração. A boçalidade, a ignorância, a conversa de tasca, tudo isto foi elevado à Assembleia da República, e deputados destes usam o poder que têm nas mãos para tirarem desforras parcas, desforras que não têm o bem-comum em cima da mesa. Nem se entende bem de que se estão a desforrar.
No meio de tanto discurso sobre família, a direita esquece-se do mais óbvio: regra geral, a paz dentro de casa passa por ter filhos e saber amá-los. Sob a tentativa de moralizar catolicamente a política, Paulo Núncio faz da própria casa uma performance – e ainda tenta mandar em casa alheia.
