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A magreza voltou a ser a senha da humanidade

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Outro dia estávamos em três. Ela chegou primeiro. Bastou atravessar a porta para que os elogios começassem. "Nossa, como você emagreceu!" "Você está linda." "Tá com outra cara." "Rejuvenesceu."

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Minutos depois, alguém brincou: "Agora eu preciso te apresentar um amigo."

O "agora" ficou ecoando em mim. Como se o amor também obedecesse ao índice de massa corporal. Como se romances fossem um benefício reservado a determinados corpos.

Eu estava ao lado dela. Recebi um abraço, um beijo no rosto e um "quanto tempo". Nenhuma amiga me achou mais bonita. Nenhuma imaginou um namorado para mim. Nenhuma perguntou se eu estava apaixonada. Foi uma cena pequena. Quase imperceptível, mas grandes violências costumam começar assim.

Dias antes, voltando de uma viagem, o motorista do aplicativo abriu o porta-malas. Pegou a mala da minha amiga, colocou cuidadosamente na calçada, fechou o compartimento e voltou para o banco do motorista. A minha mala continuava lá dentro.

Não houve grosseria. Não houve ofensa. Apenas uma suposição silenciosa: quem ocupa mais espaço também pode carregar mais peso. Passei dias pensando nessas duas cenas e nenhuma delas era, diretamente sobre emagrecimento, mas ambas eram sobre humanidade.

Porque talvez a maior mentira da nossa época seja dizer que as pessoas querem ser magras. Não. As pessoas querem os acessos que a magreza oferece.

Querem entrar numa sala e serem chamadas de bonitas antes mesmo de dizer bom dia, ser imaginadas em histórias de amor. Querem que alguém carregue suas malas. Querem experimentar qualquer roupa sem que uma vendedora as conduza discretamente para "aquela seção ali no fundo". Querem fazer uma consulta médica sem transformar cada dor em consequência do próprio corpo. Querem sentar no avião sem pedir desculpas. Querem existir sem que o corpo seja a primeira informação sobre quem são.

Horror e realismo mágico na escrita sobre gordura e memória

A........

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