Que saudade dos meus ‘pernas de pau’
Confesso: passei quase dois meses em adultério futebolístico. Traí o meu time — esse amor antigo, regado a cerveja com Rivotril, cheio de defeitos, que me faz sofrer todo domingo — com craques que matam uma bola a sangue frio e dão passes que parecem escritos por Deus em dia inspirado de criação. A Copa do Mundo é isso: uma amante luxuosa que aparece de quatro em quatro anos, perfumada, poliglota que fala línguas que não entendo, e me faz esquecer, por algumas semanas, a mulher da minha vida.
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Mas a Copa está quase acabando. E eu, em vez de tristeza, sinto um alívio estranho, quase uma alegria envergonhada. Porque vou voltar para casa. Vou voltar para o meu time, para a minha arena meio vazia, para o Caixa, meu narrador ilusionista, para os meus queridos, insubstituíveis, eternos pernas de pau.
Que saudade deles, meu Deus.
Saudade do zagueiro que chuta a bola para o alto como quem manda uma carta sem endereço, confiando que o destino resolva. Saudade do atacante que corre quarenta metros em disparada gloriosa e, na hora do gol, tropeça na própria sombra. Saudade do meia que tenta um lançamento genial e acerta, em cheio, o vendedor de pipoca da arquibancada. Há uma poesia nisso que os craques da Copa desconhecem. O craque acerta, e o acerto é bonito, mas previsível. O ‘perna de pau’ erra, e o erro é sempre uma surpresa, uma invenção, um haicai involuntário.
Aprendi como médico, que o corpo humano é uma máquina de falhar com elegância. O coração falha, o joelho falha, a memória falha e a hemorroida nos aleija. Os pernas de........
