Inventário
Já passei dos 60 e ainda não descobri o que vou ser quando crescer. Isso, que em qualquer pessoa sensata seria motivo de constrangimento, em mim virou método. Mineiro, desconfio de tudo que se resolve cedo demais — inclusive de mim mesmo. É como me disse certa vez uma paciente no auge dos seus 104 anos ao comentar a destruição em Gaza: “Não sei que mundo esse povo vai deixar para mim!”.
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Fiz as contas outro dia, numa dessas insônias que a idade nos presenteia: quatro filhas, três casamentos, mais de 40 anos de medicina, três hospitais, um consultório, pesquisas clínicas, uma coluna semanal neste jornal, um grupo de ciclismo, uma bicicleta que está sempre contra o vento e o Sushi, um cãozinho do tipo salsicha que invadiu minha vida. Somando tudo, dá uma vida. Ou duas. Ou uma vida mal dividida por várias, que é como geralmente se vive.
Comecemos pelas filhas, que é por onde tudo deveria começar. Quatro. Espalhadas por três casamentos, como capítulos de um romance que o autor reescreveu teimosamente, convencido de que ainda não tinha acertado o tom. As filhas, essas, acertei todas. Os casamentos é que tinham defeito de fabricação — certamente no marido, mas isso é assunto para outra crônica, ou para nenhuma. O mineiro lava roupa suja em casa e, na dúvida, nem lava: dobra como se enrola um queijo e guarda para curar.
Há quem diga que casar três vezes é insistência. Prefiro pensar que é otimismo com método científico: hipótese, experimento, resultado, nova hipótese. Meu amigo, Robertão, casou oito vezes e está firme na oitava. A medicina nos ensina que o fracasso de um protocolo não invalida a pesquisa — apenas refina a........
