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Aulas de aridez

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28.07.2026

Semana passada, fui apresentado ao deserto do Atacama. Um infectologista de férias no lugar mais estéril do planeta — pura ironia profissional. Passo boa parte do meu tempo tratando pacientes com infecções por micro-organismos super-resistentes e fui descansar justamente onde nem eles se dão ao trabalho de viver; no Atacama, existem solos onde não mora bactéria alguma, e um colega brincou que ali eu poderia, enfim, apertar mãos sem pensar duas vezes. Não apertei mão nenhuma. No deserto, apesar da epidemia de turistas, cumprimenta-se o silêncio.

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A geografia é de uma simplicidade e beleza que dá vertigem. De um lado, a Cordilheira dos Andes, com suas centenas de vulcões sonolentos — o Licancabur à frente, um cone tão perfeito que parece desenhado por um deus geômetra que, satisfeito com a obra, se aposentou. Vulcões que dormem há milênios com um olho aberto, como pais que fingem cochilar para espreitar a filha adolescente que se engruvinha na sala com o primeiro namorado. No meio, o deserto infinito, cor de ferrugem e osso. Dunas, vales e formas que desenham figuras impossíveis. Do outro lado, uma cordilheira pequena, modesta, quase tímida, separando aquele universo mineral do Oceano Pacífico, febril e convulsionado pelo super El Niño.

Andei por ali pensando no livro de Eduardo Galeano. "As veias abertas da América Latina" fala de um continente que se especializou em ser pilhado: nos levaram ouro, prata, salitre, borracha, açúcar, e nos exploraram com tal constância, que fizemos da perda quase uma vocação. Os........

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