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Opinião | Europa enfrenta inusitada aliança China–Rússia–EUA

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22.02.2026

Populista Viktor Orban amplia poder na Hungria e obtém terceiro mandato

O dirigente conservador nacionalista Viktor Orban reivindicou uma ‘vitória histórica’ nas eleições legislativas na Hungria, após a divulgação dos resultados parciais. Crédito: afo

A recente viagem de Marco Rubio a Budapeste, logo após sua participação na Conferência de Segurança de Munique, revela mais sobre a política global do que parece à primeira vista. Com a Hungria em plena campanha para as eleições de abril, o secretário de Estado decidiu reforçar pessoalmente o apoio de Washington a Viktor Orbán, um líder que se orgulha de ter construído um “Estado iliberal” e, há anos, corrói gradualmente a democracia húngara.

Ao lado de Orbán, Rubio afirmou que o presidente Trump está “profundamente comprometido” com o êxito do primeiro-ministro — e foi além: disse que “o sucesso dele é o nosso sucesso”. É uma guinada radical: em maio de 2019, Rubio, senador à época, assinou uma carta bipartidária ao então presidente Trump, alertando-o para o enfraquecimento democrático na Hungria. Nela, os senadores afirmaram que “nos últimos anos, a democracia na Hungria se deteriorou significativamente” e, sob Orbán, “o processo eleitoral tornou-se menos competitivo”, e o Judiciário está “cada vez mais controlado pelo Estado”.

A mensagem atual, porém, é outra: Washington não apenas deixou de se preocupar com a escalada autoritária, mas está tentando ajudar Orbán contra o oposicionista pró-União Europeia Péter Magyar e o partido Tisza, que aparece à frente na maioria das pesquisas sérias, enquanto apenas institutos pró-governo apontam cenário inverso.

No entanto, o “modelo húngaro”, celebrado por parte da direita americana, representa também consequências internas profundas. Como escreve Anne Applebaum na The Atlantic, a Hungria, sob o comando de Orbán, tornou-se um dos países mais pobres da União Europeia, tem produtividade entre as mais baixas da região e apresenta reiteradamente um crescimento decepcionante. O país aparece há anos entre os mais corruptos do bloco europeu em índices internacionais. Applebaum descreve um sistema em que empresários próximos ao poder concentram contratos públicos e fundos europeus, criando uma economia baseada na lealdade política, não na eficiência. Os serviços do governo à população refletem esse desgaste: dois terços dos húngaros classificam o sistema educacional como ruim, hospitais enfrentam falta de médicos — muitos emigraram —, e unidades hospitalares inteiras foram fechadas.

Em 2023, a Comissão Europeia decidiu reter bilhões de euros destinados à Hungria devido a preocupações com corrupção sistêmica, retrocessos democráticos e enfraquecimento do Estado de Direito — medida que ainda passa por disputas judiciais no âmbito da União Europeia. Em Budapeste, Rubio sinalizou que, enquanto Orbán permanecer no poder, a Casa Branca estará disposta a buscar formas de oferecer apoio caso o país enfrente dificuldades financeiras — uma mensagem que, na prática, contrapõe Bruxelas.

Ainda mais revelador do que o endosso americano é o fato de Orbán também ser, na prática, o candidato preferido de Moscou e Pequim. O Kremlin vê nele seu aliado mais confiável dentro da União Europeia — um líder disposto a evitar consensos sobre a Ucrânia e a preservar canais de influência. Orbán defende que a real ameaça aos europeus não vem da Rússia, mas de Bruxelas. Já a China trata a Hungria como uma espécie de instrumento de influência chinesa no coração da União Europeia, oferecendo investimentos e usando Budapeste para atrasar ou vetar iniciativas mais duras do bloco europeu contra Pequim.

O que une Washington, Moscou e Pequim nesse caso é o fato de os três enxergarem a União Europeia como um obstáculo — seja por sua capacidade regulatória contra empresas de tecnologia, seja por sua ambição de autonomia estratégica, seja por sua política de sanções contra a Rússia, seja simplesmente por apostar em um modelo de democracia liberal. Orbán, por sua vez, defende uma União Europeia mais fraca e menos capaz de atuar como pólo de poder.

Durante décadas, a estratégia global europeia repousava sobre três pilares — proteção militar dos EUA, acesso a energia russa barata e integração econômica profunda com a China. Os três estão em xeque agora. Washington ameaça a soberania de um país europeu e mantém-se ambígua sobre o compromisso de defender outros membros da OTAN; a Rússia invadiu um Estado europeu; e a relação comercial “ganha-ganha” com a China deixou de ser uma realidade consensual. Adaptar-se a esse novo cenário é como serrar três pernas de uma cadeira ao mesmo tempo. Não surpreende, portanto, que a Europa esteja correndo para fortalecer seu mercado interno, ampliar sua capacidade de defesa e buscar novas parcerias estratégicas — da Índia ao Mercosul.

A convergência anti-União Europeia e “iliberal” entre Washington, Moscou e Pequim em torno de um líder que concentra poder, enfraquece instituições e tolera corrupção estrutural diz muito sobre o momento atual do sistema internacional, sobre as ameaças à democracia e sobre a dimensão do desafio europeu nos próximos anos.


© Estadão