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Opinião | Do flash para cegar goleiros ao gramado cavado: a persistente história da trapaça no futebol

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15.02.2026

Mauro Beting | A desnecessária voadora de Flaco López no dérbi

Argentino repetiu falta de respeito vista em gestos de Luciano e Yuri Alberto, comenta o colunista do Estadão. Crédito: Mauro Beting

Alguns repórteres fotográficos, até os anos 1960, acionavam o flash para cegar goleiros e zagueiros, em cobranças de escanteio, facilitando gols da equipe da casa. João Avelino, quando treinava equipes menores, fazia o travessão mais baixo, para aumentar as chances do seu time não tomar gol.

O atacante Duílio, do Coritiba dos anos 1950-60, também é o maior artilheiro do Paranaense por marcar alguns gols em cobranças de escanteio, na jogada ensaiada em que companheiros jogavam terra nos olhos do goleiro rival. Carlos Bilardo, treinador da Argentina campeã do mundo em 1986, tricampeão da Libertadores pelo Estudiantes, médico de formação, espetava os adversários com uma agulha que levava no calção.

O que Andreas Pereira cavou na marca do pênalti em Itaquera é atitude condenável. Como havia feito o vascaíno Fidélis, antes do milésimo de Pelé, em 1969. Caso raro nestas plagas e pragas: a gente mais lembra das coisas ruins que das boas. Nas redes antissociais, em ambientes tóxicos (tipo o X e os chats de programas, e mesmo nas nossas pautas), o pau que batia no Papa Francisco é a mesma bomba termobárica que evapora o Chico.

Condenamos com dosimetria exacerbada atitudes nada esportivas mais do que enaltecemos Alisson Safira, atacante do Juventude, contra o São José, pelo Gaúcho. Ele partia com perigo quando o zagueiro rival Diney desabou lesionado. Safira largou o lance. Mesmo com seu time perdendo. “É um companheiro de profissão, né? O que fiz foi o que eu gostaria que fizessem comigo. Foi assim que eu aprendi em casa. Não pensei em resultado. Só no lado humano. Por mais que muitos não entendam e tenham vaiado”.

O Juventude acabou virando o jogo e vai disputar as semifinais. Safira levou mais pedrada pela preciosa atitude do que manchetes positivas. A louvável ação foi menos comentada do que merecia. Foi mais detonada do que defendida. Não apenas por ser um duelo com menos mídia que o dérbi paulista. Mas por ser atitude nem sempre louvada em nossos campos de “ferro-play”. Ainda mais em partida em que o rival abusava da cera. De se atirar em campo sem ter a lesão que levou Diney para fora do jogo.

Não se pode exigir fair-play. Apenas torcer para que mais Safiras tenham coragem de defender não o que é “politicamente correto” - que é difícil achar algo político correto... Mas praticar o que é “certo” - por mais incerto que seja o mundo onde o fim da picada justifica o meio. Cavando o próprio buraco e as covas mais fundas. Com os argumentos mais rasos.


© Estadão