Opinião | Guimarães Rosa, a demolição e a perda da memória
Para Sergio Abranches.
Uma postagem circula pelo grupo “Literatura e Liberdade”, criado em Minas Gerais pelo Afonso Borges, um querido de todos. Escreveu Afonso: “Lamentável história a da demolição da casa do doutor José Lourenço, em Curvelo, referência na obra de Guimarães Rosa. O Mondolivro de hoje vem carregado de indignação com a cidade.
Foi demolida a casa do doutor José Lourenço, médico que marcou profundamente a vida – e a literatura – de João Guimarães Rosa. Foi ele quem descobriu a miopia do menino Joãozito, ainda em Cordisburgo.
Essa cena virou literatura em Campo Geral, no livro Corpo de Baile. Quando Miguilim coloca os óculos pela primeira vez, tudo se revela: o mundo fica novo, luminoso, quase espantoso. É um dos momentos mais comoventes da obra de Rosa – e nasceu de um história real, ligada ao patrimônio material e imaterial da história de Curvelo.
Rosa chamava Curvelo de “cidade capital da minha literatura” e aparece 19 vezes em seus livros. Ali viveram parentes, afetos, histórias. Mesmo assim, a casa do médico que inspirou esse momento fundador foi ao chão, com autorização oficial. Lamentável. Quando uma casa dessa importância é demolida, some um pedaço da história do Brasil e da literatura brasileira.
A história não termina aqui. Imediatamente, o jornalista e escritor Sergio Abranches entrou no cortejo escrevendo-me: “Ah, a casa do doutor José Lourenço, no Curvelo? Ele era meu bisavô, o médico do Curvelo tão presente em toda a obra de Guimarães Rosa, e personagem decisivo de Miguilim.
Como era médico de minha mãe, sua neta mais velha fez questão de que o parto de seu primeiro filho fosse feito por ele. Meus pais moravam em Barbacena. Eles foram para Curvelo de trem, quando minha mãe estava no sétimo mês de gravidez. Eu nasci nesta casa demolida, a que Guimarães visitava sempre que passava por Curvelo. Fiquei chocado com a demolição. Além de fazer parte da história cultural do sertão mineiro, a capital da literatura de Guimarães Rosa, como ele dizia, era uma das mais antigas construções de Curvelo, em estilo neoclássico. Meu bisavô sustentou a Santa Casa da cidade por quase 40 anos. Lá atendia os mais pobres. Saía a cavalo pelos arredores da cidade, onde estavam os pobres, peões, e cuidava deles e suas famílias, todas as manhãs. Só à tarde, no seu consultório, atendia os fazendeiros ricos. A casa tinha uma entrada independente, era o consultório.
