Opinião | Da doação ao transplante de medula óssea: esperança e desafios do acesso no Brasil
A doação e o transplante de medula óssea representam, para milhares de pessoas com doenças hematológicas graves, a principal — e muitas vezes a única — chance de cura. Leucemias, linfomas, mieloma múltiplo, síndromes mielodisplásicas e diversas condições raras de saúde dependem desse procedimento para que o tratamento avance. Apesar disso, no Brasil, o caminho entre a indicação do transplante e sua realização ainda é marcado por obstáculos importantes.
O País possui um dos maiores registros de doadores voluntários de medula óssea do mundo, o Registro Nacional de Doadores de Medula Óssea (Redome), com quase 6 milhões de pessoas cadastradas.
À primeira vista, tal número poderia sugerir que o problema do acesso estaria resolvido. No entanto, a realidade é mais complexa. Ter um grande banco de doadores não significa, necessariamente, garantir que o transplante ocorra no tempo adequado para todos os pacientes que dele necessitam.
Um dos principais desafios está na desigualdade regional. De acordo com estudo feito pelo Observatório de Oncologia, em 2024, a distribuição geográfica dos transplantes confirma uma forte concentração na Região Sudeste, especialmente no Estado de São Paulo (3.422 TMOs), que reúne os maiores centros de referência e responde por grande parte dos procedimentos nacionais. As Regiões Sul e Nordeste aparecem com participação moderada, enquanto o Norte e o Centro-Oeste possuem menor representatividade, o que sugere desigualdade de oferta e necessidade de expansão da rede de atendimento especializado nessas áreas.
Além disso, há a questão do tempo. Doenças onco-hematológicas frequentemente evoluem de forma rápida, e o atraso na realização do transplante pode comprometer o sucesso do tratamento. A longa espera por exames, liberação de vagas, autorização de procedimentos e disponibilidade de leitos especializados ainda é uma realidade em muitos serviços públicos.
Outro ponto crítico diz respeito à compatibilidade genética. Embora o Redome seja extenso, encontrar compatibilidade fora da família é bastante desafiador, especialmente em países com grande miscigenação, como o Brasil.
Também de acordo com o levantamento feito pelo Observatório de Oncologia, o perfil dos pacientes revela que 52,9% das pessoas submetidas ao TMO são de raça branca, 39,2% parda e 6,6% preta. Essa distribuição sugere um predomínio de pacientes brancos, o que pode refletir possíveis desigualdades de acesso aos serviços especializados. Isso reforça a necessidade de campanhas contínuas, inclusivas e bem direcionadas de conscientização sobre a doação de medula óssea e da atualização cadastral.
Ainda há, no campo da doação, mitos e desinformação. Muitas pessoas acreditam que doar medula óssea é um procedimento extremamente doloroso ou arriscado, o que não corresponde à realidade atual da prática médica. A falta de informação afasta potenciais doadores e limita a ampliação do registro.
Do ponto de vista do sistema de saúde, o transplante de medula óssea é um procedimento complexo e de alto custo, que exige equipes altamente especializadas, infraestrutura adequada e acompanhamento de longo prazo.
Investir na ampliação e no fortalecimento desses serviços não é apenas uma questão técnica, mas uma decisão política e social, que impacta diretamente a sobrevida e a qualidade de vida dos pacientes.
Diante desse cenário, falar sobre doação e transplante de medula óssea no Brasil é reconhecer avanços importantes, mas também admitir que ainda há um longo caminho a percorrer. É preciso ampliar o acesso, reduzir desigualdades regionais, fortalecer o SUS, incentivar a diversidade no cadastro de doadores e combater a desinformação com comunicação clara e responsável.
A doação de medula óssea salva vidas. Garantir que o transplante aconteça no momento certo, para todas as pessoas que dele necessitam, é um compromisso que deve ser compartilhado entre sociedade, profissionais de saúde e gestores públicos.
