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Opinião | Correios rumam para a irrelevância, mesmo com os presentões do Tesouro e a reestruturação em vista

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20.02.2026

O mega socorro dos bancos aos Correios, de R$ 12 bilhões, com aval do Tesouro, não passa de uma caneca de preenchimento para um rombo que só tende a se agigantar.

Na semana passada, o Ministério da Fazenda apontou, para este ano, um déficit dos Correios de R$ 9,1 bilhões, que o socorro oficial não conseguiu tapar. O prejuízo do ano passado, ainda não publicado, pode ter passado dos R$ 10 bilhões.

Nada passa firmeza de que o desastre pare por aí. Pouco ou quase nada se tem falado sobre o passivo trabalhista da empresa. O que se sabe é que seu tamanho segue sendo um mistério.

A empresa conta com cerca de 80 mil funcionários mas enfrenta mais de 75 mil processos na Justiça do Trabalho, consequência de uma sequência de más administrações e de descumprimento de acordos trabalhistas. Muitos desses processos se arrastam nos tribunais por décadas.

Como não se sabe o quanto as quase inevitáveis condenações implicarão em indenizações e multas, também não dá para saber em mais quantos bilhões de reais afundarão as finanças da empresa. Esta é uma das razões pelas quais não apareceram interessados quando os Correios figuraram na lista de privatizações durante o governo Bolsonaro.

O atual processo de reformulação prevê dispensa de 10 mil funcionários em 2026 e de outros 5 mil em 2027, pelo regime de PDV (Plano de Desligamento Voluntário). Ainda não há informações sobre o grau de sucesso dessa operação.

A atual administração também planeja fechar mil agências deficitárias das 10 mil com que conta hoje. Por aí se vê o tamanho do furo no discurso tão recorrente de que é preciso preservar o princípio da universalidade, pelo qual todos os rincões do País devem ser atendidos pelos serviços dos Correios, não importando seu custo operacional.

E há o leilão de 60 imóveis, a maioria desativada e/ou deteriorada, que pouco interesse vem despertando no mercado. No primeiro leilão, saíram apenas 3 dos 12 colocados à venda. A previsão de que esses leilões arrecadarão R$ 1,5 bilhão parece otimista demais.

Essas providências, ainda que necessárias, não passam de cortes de unha e de cabelo. A questão de fundo é a de que a empresa perdeu mercado. E não foi apenas pelo desestímulo das importações de pequeno porte, as chamadas blusinhas, de cuja entrega os Correios se encarregaram. Não há mais cartas e telegramas a entregar.

Nem mesmo os bancos e as empresas repassam correspondência via Correios. Os boletos vêm pelo WhatsApp. E já não dá para competir em entregas de produtos encomendados online com gigantes globais como Amazon, Mercado Livre e Shopee.

Se tudo continuar como está, mesmo com os presentões do Tesouro e a reestruturação em vista, os Correios continuarão se desintegrando, a caminho da irrelevância.


© Estadão