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Notícia | Crônica: ‘Limite para sombra’

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14.02.2026

Com o caso Epstein vindo à tona com tamanho volume de informações, me peguei imersa, por meio dos documentários, na história dantesca do bilionário americano.

Chamar Epstein de narcisista e psicopata e colocá-lo na categoria dos doentes parece uma tentativa de criação de uma narrativa que faça algum sentido e que o separe dos seres humanos considerados “normais”. Não concordo.

Acho que Epstein é um caso mais comum do que parece: o do homem que perde a noção de limite por causa do dinheiro e poder.

Com o passar dos anos, dos milhões acumulados e das relações influentes pelo mundo, ele se achou invencível.

Sem medo de qualquer retaliação, deu asas a seus desejos obscuros, abriu espaço para seu lado mais sombrio.

Homens, sexo e poder caminham frequentemente lado a lado na história da humanidade. Essa tríade parecia natural – talvez até tolerável.

O que o escrutínio da imprensa e o volume da indignação da sociedade confirmam é que já não é mais. Desejos sombrios não podem se transformar em possibilidades reais.

Segundo Jung, todos temos uma sombra, um arquétipo universal do inconsciente pessoal. Depois de meio século de vida, me parece que a sombra de alguns é realmente maior do que a de outros.

Mas tenho certeza de que é possível trabalhar essa sombra ao longo da vida – se não por vontade própria, ao menos para que seja possível conviver em sociedade.

Não se trata de doença. Trata-se de falta de limite – limite que precisa ser estabelecido pela sociedade, pelas leis e por nós, mulheres.

Somos a maioria das vítimas dessa crença que normaliza sexo e poder como pares, tratando o poder como afrodisíaco masculino. Para as mulheres, com raras exceções, sexo está ligado ao prazer.

Sexo quando feito sem assimetria de poder pode ser prazeroso. E, quando isso acontece, não há necessidade de alguém muito mais jovem, mais vulnerável física, emocional ou economicamente.

Nós, mulheres, podemos ajudar a mudar essa forma disfuncional das relações ao questionar pequenos incômodos nas falas e atitudes dos homens que convivem conosco – sejam pais, irmãos, maridos, chefes ou subordinados.

Temos, como vítimas, um lugar de fala que deve ser usado como força.

Temos filhos que podem aprender a entender o sexo de outra forma.

E, com isso, transformar suas próprias vidas – e as vidas das mulheres – em espaços de encontro, não de dominação


© Estadão