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O país que temos

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22.02.2026

É um erro pensar-se ou cristalizar a ideia que o país aprofundou a crise com a sucessão de intempéries que assolaram o território nacional nestes últimos dias. É um erro que serve para criar fricção política, serve para desculpar os maus desempenhos governativos e serve para fazer aproveitamento político de uma situação extremamente gravosa e penosa. 

1 - A crise está enquistada desde os primórdios da democracia com algumas abertas mais descomprimidas, mercê dos benefícios recebidos da União Europeia. É verdade, e sem margem para dúvidas, que a governação de Cavaco Silva, no período 1984-1994, alavancou a economia nacional para níveis europeus. Foi o melhor período económico e social que o país conheceu até hoje. Fizeram-se grandes reformas e executaram-se grandes projectos que fundamentaram a modernização da economia nacional, tornando o país competitivo à escala mundial. A partir daí, os crescimentos económicos foram sempre anémicos com a despesa pública a galopar, a contribuir para o alto endividamento do país e para o enfezamento da economia.

2 - Os fenómenos atmosféricos desnudaram muitas fraquezas que estavam mais ou menos escondidas ou mitigadas no tecido infra-estrutural e social. Devido ao bom clima, o país nunca se preparou convenientemente para eventuais calamidades naturais que pudessem acontecer. O foco da política nacional está mais na ideologia da distribuição, no combate às desigualdades, que nunca se resolveram, nem se resolverão e na conquista ou manutenção do poder. 

O investimento comprometido com a criação de emprego e com a reprodução de valor da economia e da riqueza não eram, portanto, as preocupações primeiras dos políticos. O lema é: ninguém ficar para trás, mesmo que não se queira ir em frente e para a frente.

3 - O bom desempenho da Protecção Civil e dos Bombeiros, a entrega solidária de instituições cívicas e militares e o nacional voluntarismo das pessoas foram atenuando os problemas mais graves das intempéries, deixando, contudo, um rasto de mazelas muito difíceis de se cicatrizarem. Tem sido esta a sina que retrata, na perfeição, o quotidiano recente do viver luso: lamentos, sofrimento, desolação e críticas ferozes contra o governo, juntando-se a oposição ao festim. Qualquer problema natural que surge no país é exponenciado para altos patamares de complicada resolução. Aconteceu agora com a Natureza que se tornou madrasta. 

4 - A comunicação social, sempre ávida de passar informações quentes e azedas, não dá descanso ao saturado consumidor televisivo. Todo o santo dia mostra imagens duras e o comentariado avençado comenta essas informações até à exaustão do admissível, que deprime quem as ouve e quem as vê. De facto, a situação real de muitos concelhos é extremamente sofrida, desoladora e revoltante. Muita destruição e muita falta de serviços essenciais são o cenário que mostra os efeitos de tempestades raivosas que não param de se exibir. Estou crente que o fado vai continuar sob a batuta da nota dó, alimentado por comentadores a soldo.

5 - A organização do território, muito estudada, planificada e sempre criticada, tem mostrado as suas fragilidades. Primeiro facto: Constrói-se onde não se deve. O desrespeito pelas linhas de água, pelos chamados leitos de cheio e pelos solos em declive é uma realidade objectiva que tem causado dissabores sérios na segurança das pessoas e na boa gestão do território. Segundo facto: Qualquer sítio serve para se instalar casas e pavilhões industriais ou comerciais. Terceiro facto: As construções padecem de qualidade e de robustez para aguentar o tempo atmosférico (alterações climáticas?) que se faz sentir cada vez mais agreste. Quarto facto: Os responsáveis pela gestão territorial ainda jogam no campo da sorte, dos acasos e das previsibilidades. 

6 - Ainda se fala em casas a preços controlados e em habitações modulares. Vi imagens de um bairro de casas modulares a desaparecer simplesmente como uma montagem acastelada de cartas de jogar. Com as condições climatéricas a agravarem-se, ano após anos, é preciso repensar bem que país queremos. Que construções queremos. Que autarcas queremos. Que território queremos. 

Construir por construir e à balda não resolve qualquer problema da Habitação. Pelo contrário, agrava-o e, no final, só traz desolação.


© Diário do Minho