Madame Joséphine: o Enigma de Vidago (CAP IV)
Madame Joséphine: o Enigma de Vidago (CAP IV)
A rigidez do hotel e da Polícia Judiciária é abalada pela chegada ruidosa e teatral de Zé Carlos e da Dona Adelaide, vindos de Alvites. Enquanto o fidalgo cria uma providencial distração para entregar uma nova e sangrenta pista a Madame Joséphine, o perigo move-se nos corredores do hotel, culminando num violento ataque à traição.
CAPÍTULO IV: O CICLONE DE ALVITES
O ambiente enfadonho, aristocrático e tenso do Vidago Palace Hotel, vigiado à baioneta pela GNR e devassado pelas inquirições da Polícia Judiciária, quebrou-se com uma ruidosa explosão de excentricidade. A meio da manhã, enquanto barões e condes sorviam o seu chá em sussurros fúnebres, as portas de vaivém em vidro biselado do salão nobre abriram-se com um estrondo. Por elas entrou uma figura alta, vestida num fato de linho caríssimo, mas escandalosamente amarrotado, ostentando um panamá desabado na cabeça e os bolsos a rebentar com jornais de anúncios agrícolas.
Era Zé Carlos, o cunhado transmontano de Madame Joséphine, senhor do Solar de Alvites, em Mirandela. Em tempos passados, Zé Carlos fora afamado pelas noites boémias e pelas valiosas garrafas de Vinho do Porto Vintage e conhaque francês vazadas até ao amanhecer; mas o casamento com Dione, a doce e firme irmã de Joséphine, operara o milagre: o homem trocara o vício do copo por uma hiperatividade agrícola e uma bonomia ruidosa que desarmavam qualquer tragédia.Logo atrás dele, em absoluto contraste com aquele desalinho dinâmico, caminhava a Dona Adelaide. Vestida com um sóbrio fato de viagem escuro, o cabelo preso num coque imaculado e uma postura tão esguia e digna que faria inveja às duquesas da capital, Adelaide era a própria personificação da respeitabilidade do solar. Dione enviara-a com uma missão clara: garantir que a energia indomável do marido não causasse um incidente diplomático. Adelaide trazia nas mãos uma requintada cesta de vime forrada a linho bordado, movendo-se pelo salão com uma elegância silenciosa que se fundia na perfeição com o luxo de Vidago.
— Mas que paragem de camioneta vem a ser esta à porta do hotel?! — bradou Zé Carlos, abrindo os braços e ignorando os semblantes severos dos guardas da GNR. — Josefina! Antoine! Homessa, que o vosso cabriolet lá fora parece ter sido inspecionado por um boi bravo!
— Modere o tom, Senhor Zé Carlos. Estamos num estabelecimento de prestígio, não na feira de gado — murmurou Dona Adelaide. A sua voz, embora baixa e aveludada, detinha a autoridade cortante de uma governanta da fidalguia. Com um leve aceno de cabeça, desarmou o recruta da GNR que ensaiara travar-lhes o passo: — Com licença, guarda. Trazemos cumprimentos da Senhora Dona Dione para a irmã.
Madame Joséphine levou a mão à testa, dividida entre o sobressalto e um profundo alívio ao testemunhar o equilíbrio perfeito entre a exuberância do........
