Humanidade e algoritmos: o alerta de Leão XIV ao mundo
Ao publicar a sua primeira encíclica, Magnifica Humanitas, o Papa Leão XIV não nos entregou apenas um documento pastoral. Fez um diagnóstico portentoso sobre a natureza do poder nos dias de hoje. Vejo o texto como um importante manifesto geopolítico sobre possivelmente a maior fonte de poder e de conflito neste século XXI: a Inteligência Artificial (IA).
A encíclica vai muito além da tradicional crítica aos Estados e aponta o dedo às megaempresas de tecnologia enquanto verdadeiros atores políticos e militares. Munidas de mundos e fundos, de meios de pesquisa avançados e de uma extraordinária influência política, estas corporações definem agora prioridades estratégicas que ultrapassam a capacidade de decisão dos próprios governos. Fazem-no à margem de qualquer escrutínio democrático.
O Papa é claro nas suas advertências. A IA está a minar a opinião pública através da desinformação à escala global e a esvaziar-nos da nossa humanidade quando delegamos decisões morais a máquinas. Pior ainda: com a proliferação dos Sistemas de Armas Letais Autónomas (SALA), a IA ameaça a própria lógica da guerra, já de si quase sempre um contrassenso ético. Basta olhar para a tragédia de Minab, no sul do Irão. A 28 de fevereiro, um sistema autónomo de seleção de alvos “decidiu” matar 156 pessoas numa escola primária. É mais uma prova da perigosidade e falibilidade destes sistemas. Álibis para os erros? Bancos de dados desatualizados, modelos enviesados por preconceitos e uma estranha incapacidade de ler o........
