A Europa e a ilusão dos aliados permanentes
Esta semana surgiu mais uma pergunta incómoda sobre a crise de Ormuz. Que legitimidade tem uma potência para tratar os pontos de estrangulamento do comércio mundial – e os Estados que deles dependem – como meros meios para os seus fins? Na segunda-feira, o presidente dos Estados Unidos autoproclamou-se “Guardião do Estreito de Ormuz” e impôs uma tarifa de 20% sobre o trânsito comercial nesse corredor marítimo. Na terça-feira, recuou e anulou a medida. Fê-lo sob pressão dos seus aliados no Golfo.
O episódio revelou falta de discernimento estratégico – uma qualidade essencial em qualquer liderança. Perspicácia não é hesitação, cobardia ou cálculo tático. É a habilidade de avaliar as consequências de uma decisão antes de a anunciar; de distinguir entre o que é juridicamente possível, politicamente aceitável e estrategicamente sustentável; e de agir de modo a preservar a credibilidade, em vez de a gastar em gestos incongruentes. Um dirigente com discernimento sabe que o poder não se mede apenas pela capacidade de impor uma medida, mas também pela aptidão para prever as resistências que ela desencadeará.
A taxa efémera do autoproclamado “guardião” foi um exemplo de imprudência: imposta como um facto consumado, sem base jurídica reconhecida, sem consultar os parceiros diretamente afetados e sem uma avaliação séria da reação dos Estados do Golfo. A medida caiu não por generosidade, mas porque os países afetados tinham poder para revertê-la. A Organização Marítima Internacional confirmou não existir base jurídica para esta cobrança. O problema não foi........
