Habitação: não há pacote do Estado que resolva o problema
Sempre que o debate em Portugal tropeça na escalada dos preços da habitação, instala-se uma espécie de amnésia coletiva que conduz, invariavelmente, à mesma conclusão simplista: o mercado falhou, logo é imperativo que o Estado avance com um grande plano público de construção. Que é como quem diz, que o Governo (ou alguém dele) pegue na colher de pedreiro e resolva o problema com o dinheiro dos contribuintes. Trata-se de uma tese que poderá seduzir muitos, pela sua aparente facilidade, mas que colapsa estrondosamente mal se fazem as mais elementares contas "de merceeiro". Não é preciso mais matemática.
Façamos as contas passo a passo, como na escola primária, recorrendo àquele que se tornou o exemplo favorito dos adeptos da despesa pública: os 3,2 mil milhões de euros enfiados na TAP. Argumenta-se com frequência que se poderia ter usado dinheiro semelhante para erguer um parque habitacional monumental que impedisse as coisas de chegarem a este ponto. Isto sem esquecer, claro, as causas prévias que muitos preferem ignorar: mais de dez anos de injeções massivas de liquidez pelos bancos centrais na economia e taxas de juro em mínimos históricos que hiperalimentaram o crédito ao consumo e à compra de casa, seguidos de uma regulação bancária asfixiante que cortou o financiamento às construtoras no pós-troika e estrangulou a oferta.
Em Portugal, nos dias de hoje, o custo básico de construção civil – materiais como cimento, aço ou tijolo e mão de obra – ronda facilmente entre os 1400 e 1600 euros por metro quadrado. A isto há que juntar os encargos indispensáveis que ninguém consegue contornar: a compra do solo urbanizável, as infraestruturas de saneamento e eletricidade, os projetos de arquitetura, as licenças e a fiscalização de obra, o que atira o custo real global para uma média conservadora de 1800 euros por metro quadrado.
Imaginemos então uma habitação modesta, um T2 banal com 90 metros quadrados de área bruta de construção. Multiplicando essa área por 1800 euros, cada um desses apartamentos custaria, no mínimo absoluto, cerca de 162.000 euros para ficar pronto a habitar.
Agora, peguemos no total dos 3,2 mil milhões de euros que foram injetados na TAP e dividamo-lo pelo........
