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“Carta ao meu amigo Henrique Botelho”

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24.03.2026

“A amizade não se busca, não se sonha, não se deseja. Ela exerce-se. É uma virtude” (Simone Weil) Amigo Henrique Quero dizer-te que, quase dois anos após a tua partida, a saudade não diminuiu, bem pelo contrário. Nós, os teus amigos, continuamos a manter bem viva a memória dos muitos momentos que contigo partilhámos, e não será a tua ausência física que fará esmorecer a amizade que nos une. Como sabes, as verdadeiras amizades conseguem superar, embora com imensa tristeza, o tempo e a morte. As nossa conversas, a solo ou em grupo com outros amigos, sempre versaram temas diferenciados, tal era a panóplia de matérias que suscitavam o teu interesse. O Serviço Nacional de Saúde, ao qual te orgulhavas de pertencer e do qual sempre foste um acérrimo defensor, constituía, naturalmente, um assunto recorrente. Mas recordo também as conversas sobre outros temas que acompanhavas, em alguns deles militantemente, como a cidadania, o sindicalismo, o associativismo ou a política. Mas sempre notei, até porque nunca foste homem de disfarçar, sempre assumiste as tuas convicções, mesmo nos campos político e desportivo, que além da Maria João, da Mariana e da Teresinha, tinhas outro grande amor, a fotografia. Recordo o teu entusiasmo, que naturalmente também envolveu os amigos com quem abordaste o assunto, quando surgiu a oportunidade de editares um livro com uma pequena parte do teu riquíssimo e valioso espólio fotográfico. Pois bem, Henrique, a boa notícia é que o livro já foi editado. Tal fica-se a dever a mais uma atitude nobre do nosso comum amigo José Teixeira, que acabou por certificar a minha asserção inicial sobre a infinita durabilidade das verdadeiras amizades. “Henrique Botelho – meia vida” é o feliz título do livro agora apresentado perante uma plateia de amigos que lotaram o Teatro Domingos da Silva Teixeira, publicação de grandíssima qualidade patrocinada pelo habitual mecenas cultural de Braga, o DSTGroup, e que constitui uma justa homenagem à tua veia artística para a fotografia. Se necessário fosse, a presença massiva de pessoas nesta apresentação-homenagem veio reforçar a ideia da perenidade da amizade. O filósofo e ensaísta inglês Francis Bacon dizia que “não há solidão mais triste do que a do homem sem amizades”, para concluir que a falta de amigos faz com que o mundo pareça um deserto”. Ora tu, Henrique, nunca viveste num deserto, e o fim de tarde em que o livro foi apresentado veio demonstrá-lo à saciedade. O coordenador editorial e da edição fotográfica da obra, o multipremiado fotógrafo Alfredo Cunha, ao analisar milhares dos teus negativos, reconheceu em ti “alguém que via através da objectiva um mundo que a maioria de nós deixa passar despercebido”. Enfim, “um deslumbramento”, disse, antes de manifestar a esperança de que “talvez um dia possa falar contigo sobre este e outros livros”. Tu sabes, Henrique, que o homem que te incentivou a fazer o livro, além de amigo, é um apreciador da tua obra. Falou, por isso, com particular enlevo e uma boa dose de orgulho, do autor das melhores fotografias do seu pai, o saudoso senhor Domingos, e do seu casamento com a Ana. Em ambos os casos estava a referir-se a ti, a falar do grande fotógrafo que tu eras. Partiste muito cedo e sem terminar o livro. Mas o Zé Teixeira prometeu à João, à Mariana e à Teresinha que o livro seria feito. E o nosso amigo Zé não é homem de faltar à palavra, como sabes. E a obra, bem bonita, como seria expectável, aí está para alegria de todos. Estejas onde estiveres, também deves estar satisfeito e orgulhoso. Até sempre, amigo Henrique!

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