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Morenão, 55 anos de histórias e muitas aventuras

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06.04.2026

Quando recorre à memória da infância, todo escritor, inadvertidamente, acaba caindo naquela frase famosa do poeta Manoel de Barros: "Noventa por cento do que eu escrevo é invenção. Só dez por cento é mentira".

Acontece que a fase mais doce de nossas vidas ocorre na infância e fica difícil escapar dessa máxima do grande poeta.   Nessa crônica, porém, num esforço supremo, volto ao passado fingindo não enxergar as casas de tábuas iluminadas por lamparinas, o cheiro de querosene na fumaça passeando sobre nossas cabeças enquanto, encantados, assistíamos a novela numa televisão movida a bateria de automóvel.

O nosso sonhado teatro municipal

A casa e a escuridão: um organismo vivo

E então a mágica se forma, as esquinas de antes são levadas num sopro de vento, junto delas lá se vão as noites enluaradas da minha infância, enquanto meus dedos apertam as teclas do computador, todo silêncio do mundo, meu pensamento fixado, carregando a visão até um único destino, o gigante de concreto dentro da Universidade Federal de Mato Grosso do Sul.

O encanto dessa narrativa, permeada de momentos tão bons de minha infância, apesar de tantas dificuldades da vida humilde, me faz escrever, de forma separada, os trechos dessas memórias que tenho do estádio Pedro Pedrossian, o Morenão.

Ah, aqueles noventa por cento de invenção que disse o poeta Manoel insistem me rodeiam...  Já nesse início, sinto imensa vontade de inventar que estive presente à inauguração do estádio, um domingo festivo, no longínquo ano de 1971. Na ponta dos dedos apertando as teclas do computador, vejo nitidamente todos os lances do jogo entre Flamengo e Corinthians.

Sorrio comigo mesmo enquanto assopro para longe os dez por cento de mentiras.

Retorno à verdade, eu não fui àquele jogo, o que tenho na memória são histórias contadas por parentes e amigos que lá estiveram e nada mais.

Escapado da primeira tentação Manoelina, retorno às minhas vivas memórias:

Se não fui ao jogo inaugural, estive presente no segundo jogo oficial, entre Vasco da Gama e Guarani de Campinas, um domingo à tarde, o tempo todo me enganando ao imaginar que o Guarani era na verdade o Palmeiras. Sei que esse jogo terminou empatado em 2 a 2, mas não consigo distinguir a sequência dos gols. Manoel de Barros me assopra: "inventa qualquer coisa" e então me arrisco a dizer que o Vasco fez um a zero, o Guarani empatou, mas logo depois a equipe cruzmaltina fez o segundo e então, quando tudo se encaminhava para o fim, com a vitória vascaína, um jogador loiro chamado Cleiton, que eu jurava ser o Leivinha, fez o gol de empate para o time paulista.

Saí de lá impressionado com o goleiro do Vasco, o argentino Andrada, o mesmo que sofreu o milésimo gol do Pelé e esmurrou o gramado, inconformado por quase ter defendido o chute do rei do futebol, um lance que a televisão até os dias atuais repete várias vezes.

Logo a seguir àquela data, os times de Campo Grande se profissionalizaram e passaram a disputar o campeonato estadual ainda no Mato Grosso uno. O Comercial se sagrou campeão do ano de 1973 e isso lhe deu o direito de disputar o campeonato brasileiro daquele ano. Foi naquele campeonato brasileiro que ocorreu aquela que talvez seja a minha lembrança mais marcante:

O dia que vi Pelé jogar ao vivo.

Valter Rocha Molina, de saudosa memória, esposo da minha tia Eurinda, era torcedor fanático do Comercial, mas também torcia para o Santos. Nada no mundo evitaria que ele fosse assistir o confronto entre seus dois times do coração. No dia do jogo, munido de sua famosa........

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