Segundo um algoritmo, os pais fundadores dos EUA escreveram com ChatGPT
Poucos dias atrás, o Substack incorporou a seus recursos um detector da Pangram que estima quanto de uma publicação teria sido escrito por inteligência artificial. Por estudar academicamente, desde 2022, a entrada dessas máquinas nos afazeres cotidianos, submeti quatro artigos de minha autoria, publicados entre 2012 e 2020, quando o ChatGPT ainda nem existia. Dois receberam veredictos de 80% a 90% de escrita artificial; outro alcançou 95%; o mais benevolente marcou 42%. Uma explicação exigiria mediunidade: este pobre carpinteiro do jornalismo teria usado com generosidade uma tecnologia que ainda aguardava o nascimento.
Em dezembro de 2025, a empresa lançou a versão mais recente do sistema, batizada Pangram 3.0, blindada por um estudo da Universidade de Chicago que atestava taxa de falsos positivos abaixo de 0,5%, a menor entre os concorrentes testados. Meses antes, pesquisadores da Universidade de Maryland, usando a mesma tecnologia, haviam calculado que mais de 9% dos textos publicados em jornais americanos continham algum trecho gerado por inteligência artificial. Amparada por esse duplo aval científico e estatístico, a Pangram migrou das salas de aula para redações, agências de notícias e, por fim, para o Substack, sem que a velocidade da expansão fosse acompanhada de qualquer auditoria independente equivalente.
Falso positivo é o nome técnico para o texto inteiramente humano classificado como obra de máquina. Em uma plataforma que hospeda milhões de publicações, mesmo 0,5% representa um exército silencioso de autores atingidos; para cada um deles, a estatística abstrata se abate como um tsunami sobre a criatividade e a honestidade intelectual, arrasando em segundos reputações erguidas ao longo de décadas. Nenhum selo acadêmico, por mais rigoroso, devolve o que esse erro consome.
A anedota cede lugar ao dano.........
