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Por que ainda choro com Dersu Uzala meio século depois

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30.08.2026

Revi “Dersu Uzala” na semana passada, aqui em Brasília, na tela fria de um streaming chamado Oldflix. Mas o filme, mal começou, me devolveu a uma noite de fevereiro de 1976, dentro do cinema Rio Grande, em Natal, cidade onde vivi parte da minha juventude. Eu tinha dezessete anos e não sabia ainda o tamanho daquilo que estava vendo. Entre aquela noite e esta, se passaram cinquenta anos exatos, e ninguém atravessa um intervalo desses sem se transformar por inteiro.

Hoje sou avô de cinco netas, e a vida, é preciso dizer com gratidão, foi generosa comigo ao longo desse caminho. O que me surpreende, porém, ao rever o filme meio século depois, é descobrir que o que me era essencial naquela plateia de Natal continua essencial nesta sala de Brasília.

Talvez seja por isso que “Dersu Uzala” atravessou os mesmos cinquenta anos ao meu lado sem perder força: porque fala, do início ao fim, de um homem, o caçador Dersu, para quem certas coisas nunca precisaram ser atualizadas para continuar verdadeiras.

Falo dele hoje, contudo, por um motivo que ultrapassa a nostalgia: parece urgente lembrar, num tempo de queimadas e recordes de desmatamento, que um cineasta japonês anteviu, já em 1975, boa parte da consciência ecológica que o planeta ainda levaria décadas para amadurecer.

A trama é simples e nem por isso perde força: o capitão Vladimir Arseniev recebe do governo russo a missão de mapear as montanhas da região de Ussuri e, nessa travessia, encontra Dersu Uzala, um caçador goldi que vive sozinho no mato, conversa com o sol, com o tigre e com o vento como quem conversa com parentes distantes, e que aos poucos se converte em guia, protetor e, por fim, no amigo mais essencial da vida do oficial.

A história nasce de um livro de memórias do próprio Arseniev, publicado ainda no início do século vinte, que Kurosawa lera décadas antes e guardara como projeto adormecido, à espera do instante certo para germinar.

Um renascimento pago com sangue e generosidade

Esse instante chegou pela pior porta possível. No fim dos anos sessenta, os estúdios japoneses davam as costas ao homem que inventara boa parte da gramática do cinema moderno. “Dodeskaden” fracassara nas bilheterias, a Toho recusava financiar........

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