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O mercado das convicções

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19.06.2026

Existe uma tendência humana de acreditar que tradições surgem naturalmente. Quase sempre imaginamos que costumes transmitidos por pais e avós chegaram até nós porque sobreviveram ao teste do tempo e porque expressam escolhas espontâneas das sociedades. A história, entretanto, é mais complexa. Em diversas ocasiões, aquilo que chamamos de tradição foi moldado por circunstâncias econômicas, interesses comerciais e estratégias de comunicação extremamente sofisticadas.

O café da manhã oferece um exemplo revelador.

Durante grande parte da história humana, a primeira refeição do dia ocupava um papel discreto. Na Europa medieval, especialmente entre os séculos XIV e XV, havia inclusive certa resistência moral ao hábito de comer logo ao despertar. Trabalhadores braçais, crianças e pessoas submetidas a esforço físico alimentavam-se pela manhã. Entre membros das classes mais abastadas, a prática não era universal e, em alguns ambientes, era associada à falta de disciplina.

Com o passar dos séculos, os hábitos alimentares foram se modificando. O crescimento das cidades, a Revolução Industrial e a expansão da classe média britânica transformaram o café da manhã em uma refeição mais elaborada. O chamado “full English breakfast”, hoje visto como símbolo da tradição inglesa, consolidou-se principalmente durante a era vitoriana do século XIX, e não na Idade Média, como muitos imaginam.

Mas a história que mais chama atenção ocorreu nos Estados Unidos da década de 1920. A Beech-Nut Packing Company enfrentava um problema simples e concreto: havia excesso de bacon nos estoques e as vendas não cresciam no ritmo esperado. Para enfrentar a situação, a empresa contratou Edward Bernays, sobrinho de Sigmund Freud e um dos personagens mais influentes da história das relações públicas.

Bernays havia compreendido algo que continua atual cem anos depois. As pessoas costumam desconfiar da publicidade explícita, mas tendem a confiar em especialistas e autoridades.

Sua estratégia foi engenhosa. Depois de consultar médicos sobre os benefícios de uma refeição matinal mais substancial, promoveu uma ampla mobilização de profissionais da área da saúde. A divulgação das respostas favoráveis transformou-se em notícia. Milhares de médicos passaram a aparecer nos jornais recomendando um café da manhã reforçado. Bacon e ovos, que já eram consumidos em determinadas regiões, ganharam respaldo científico e passaram a ser associados à ideia de saúde. As vendas aumentaram e uma combinação alimentar adquiriu aparência de tradição nacional.

O episódio tornou-se um caso clássico de comunicação porque demonstrou que, em determinadas circunstâncias, a autoridade pode ser mais poderosa do que a propaganda. Bernays não criou o bacon, tampouco inventou os ovos. Seu mérito profissional........

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