Che Guevara vai muito além do retrato
Sim, é verdade, existem imagens que nascem como registro e morrem como arquivo. Outras fazem o caminho inverso: surgem quase invisíveis e, com o tempo, tornam-se uma espécie de linguagem universal. A fotografia de Ernesto “Che” Guevara feita por Alberto Korda pertence a esse segundo grupo — não porque foi planejada como símbolo, mas porque escapou de qualquer planejamento.
O dia era 5 de março de 1960, em Havana. A cidade estava atravessada por tensão e luto após a explosão do navio La Coubre, episódio que matou mais de uma centena de pessoas e redefiniu o ambiente político da ilha. O ato público que reuniu milhares de pessoas tinha função política clara: consolidar apoio interno e projetar, para fora, a imagem de um governo em afirmação. Nesse cenário, a construção simbólica de seus líderes não era acessória — era estratégica.
Alberto Korda, fotógrafo do jornal Revolución, estava ali com uma missão objetiva: documentar o evento. Curiosamente, o foco não era Che Guevara. As lentes se voltavam majoritariamente para Fidel Castro e para os visitantes estrangeiros Simone de Beauvoir e Jean-Paul Sartre, cuja presença conferia densidade intelectual ao novo regime. A folha de contato desse dia — esse diário visual — mostra repetição, método e previsibilidade.
Até que algo se desloca.
Em determinado momento, Che avança até a borda da tribuna. Korda reage e faz dois........
