Brexit fracassou
Sempre considerei fascinante observar como a humanidade resolve seus grandes impasses. Quase nunca o faz pela força permanente. Resolve-os ampliando o círculo de pertencimento. Foi assim durante milhares de anos. A família tornou-se clã. Os clãs deram origem às tribos. As tribos consolidaram cidades. As cidades transformaram-se em Estados. Os Estados formaram nações. Nos dois últimos séculos surgiram iniciativas de integração regional que pareciam impensáveis poucas gerações antes. A história humana, vista em perspectiva, revela um lento movimento de ampliação da cooperação política, econômica e institucional.
É por isso que nunca enxerguei a integração europeia apenas como um acordo comercial. Ela representa um dos mais ousados laboratórios políticos já construídos. Pode cometer erros, produzir burocracias excessivas e exigir reformas profundas. Ainda assim, continua sendo um experimento extraordinário porque tenta responder a uma pergunta que acompanha nossa civilização desde sempre: como povos diferentes podem prosperar sem recorrer continuamente à guerra?
Para compreender essa experiência é preciso lembrar como era a Europa antes dela. Durante séculos, o continente foi o principal palco das disputas militares do planeta. Franceses, alemães, ingleses, espanhóis, italianos, austríacos, russos e inúmeros outros povos alternaram alianças e conflitos que custaram dezenas de milhões de vidas. Somente entre 1914 e 1945, duas guerras mundiais devastaram cidades inteiras, destruíram economias e deixaram marcas que atravessam gerações.
Foi justamente dessa tragédia que nasceu uma ideia revolucionária.
Em 9 de maio de 1950, o ministro francês das Relações Exteriores, Robert Schuman, apresentou uma proposta elaborada em estreita colaboração com Jean Monnet. Em vez de administrar apenas a paz, seria necessário construir instituições capazes de impedir materialmente uma nova guerra entre França e Alemanha. A solução parecia simples e genial ao mesmo tempo: colocar sob administração comum justamente as indústrias de carvão e aço, indispensáveis para fabricar armamentos.
No ano seguinte, em 1951, França, Alemanha Ocidental, Itália, Bélgica, Holanda e Luxemburgo assinaram o Tratado de Paris, criando a Comunidade Europeia do Carvão e do Aço. Era muito mais do que um acordo econômico. Era uma tentativa de tornar a guerra economicamente irracional.O passo seguinte ocorreu em 25 de março de 1957, quando os mesmos seis países assinaram os Tratados de Roma, criando a Comunidade Econômica Europeia. Nascia o mercado comum europeu, baseado na livre circulação de mercadorias, capitais, serviços e, progressivamente, pessoas.
Década após década, esse projeto ganhou novos integrantes e novas instituições. Em 1979, ocorreram as primeiras eleições diretas para o Parlamento Europeu. Em........
