A patente da insulina atravessa um século de avanços no combate ao diabetes
O diabetes atinge cerca de 589 milhões de adultos entre 20 e 79 anos, um em cada nove nessa faixa etária, e a Federação Internacional de Diabetes projeta 853 milhões em 2050. A doença ocupa parcela crescente da agenda mundial de saúde e submete centenas de milhões de pessoas a tratamento contínuo, exames periódicos, mudanças alimentares e acompanhamento rigoroso da glicose.
A farmacologia desenvolveu metformina, sulfonilureias, inibidores de DPP-4 e SGLT2, agonistas de GLP-1, insulinas humanas e análogos de ação rápida ou prolongada. Bombas de infusão, sensores contínuos e canetas ampliaram muito a capacidade de controle. Para quem vive com diabetes tipo 1, a insulina permanece indispensável à sobrevivência; parte dos pacientes com tipo 2 também precisa dela.
Esses números me interessam por uma razão pessoal.
Em novembro de 2023, fui diagnosticado com diabetes tipo 2. Desde então, minha qualidade de vida diminuiu sensivelmente. Vieram restrições alimentares, mudanças na rotina e efeitos que percebo no próprio corpo, entre eles o cansaço. Uma enfermidade sobre a qual eu lia passou a ocupar espaço diário em minha vida.
Nos últimos três anos tenho procurado ler o máximo possível sobre diabetes, seus medicamentos, riscos, pesquisas e formas de controle. Esse esforço ampliou minha percepção sobre o alcance social da doença e sobre o valor de cada avanço científico. Desde então, Leonard Thompson deixou de ser apenas um personagem da história da medicina e passou a ocupar, para mim, um lugar mais próximo, ligado à experiência concreta da doença.
Há uma coincidência de datas que passou a me acompanhar. Em janeiro de 1923, Frederick Banting, Charles Best e James Collip transferiram à Universidade de Toronto os direitos sobre a patente relacionada à produção da insulina por um dólar cada. Em novembro de 2023, cem anos depois, recebi meu diagnóstico. Um século separa aqueles três dólares da receita médica que passou a integrar minha rotina.
A distância entre essas duas datas permite medir o percurso da medicina. O paciente de 1923 tinha diante de si recursos escassos. O de 2023 dispõe de exames sofisticados, várias classes de medicamentos, aparelhos de monitoramento e conhecimento muito maior dos mecanismos da doença. Ainda depende, porém, de renda, disponibilidade de remédios e políticas públicas capazes de garantir continuidade ao tratamento.
Foi depois do diagnóstico que passei a observar com maior atenção uma dessas políticas. O Programa Farmácia Popular do Brasil foi criado pelo governo federal em 2004 para ampliar o acesso da população a medicamentos essenciais. Em 2006, a modalidade Aqui Tem Farmácia Popular estendeu o programa às farmácias e drogarias privadas credenciadas e ampliou sua presença no cotidiano dos brasileiros.
A expansão daquele ano já contemplava princípios ativos destinados ao tratamento do diabetes e da hipertensão, inicialmente pelo sistema de subsídio e copagamento. A insulina regular foi incorporada ao elenco em 2010. Em fevereiro de 2011, com o Saúde Não Tem Preço, medicamentos destinados a diabetes e hipertensão passaram a........
