Resistencia à brutalidade machista na Suíça
Na pequena cidade de Untersiggenthal, no norte da Suíça, seus oito mil habitantes ainda não compreendem totalmente a tragédia vivida dentro das paredes de uma de suas casas mais conhecidas. Tampouco escondem seu espanto com a mobilização comunitária que conseguiram convocar, em 27 de julho passado, na qual participaram cerca de quatrocentos vizinhos, em sua maioria mulheres de todas as idades, para gritar sua solidariedade com as vítimas de gravíssimos abusos sexuais. Sair às ruas com cartazes e bandeiras não é comum naquela comunidade tranquila de menos de 8 mil habitantes em um cantão conhecido por sua visão tradicional e pela hegemonia política conservadora.
Poucos dias antes dessa mobilização, e como se tivessem combinado, um dos jornais suíços mais prestigiados e o Ministério Público cantonal retiraram o sigilo processual e informaram sobre uma investigação que havia começado quase três anos antes. Uma matéria de duas páginas no Tages-Anzeiger chocou a população de Untersiggenthal com as entrevistas a duas mulheres que haviam sido sistematicamente abusadas sexualmente por um vizinho muito respeitado pela comunidade e membro do Parlamento Cantonal por vários anos. Por sua vez, o Ministério Público do cantão de Argóvia solicitou formalmente que ele fosse condenado à prisão perpétua. Detido preventivamente desde setembro de 2023, o réu também será responsabilizado por outros crimes, incluindo tentativa de homicídio, estupros agravados e atos sexuais em repetidas ocasiões com menores.
Em poucas horas, Untersiggenthal deixou de ser a vila pacata que tinha sido até aquele momento, ao chamar a atenção da mídia nacional. A sociedade suíça está tentando entender o que, no momento, parece incompreensível porque o que aconteceu vai além do quadro de um “fato jurídico diverso” e se torna uma espécie de interseção de problemas sociais profundos. Eventos sórdidos que expõem a amarga realidade de uma brutalidade doméstica doentia e silenciada, machismo desenfreado e profundos sentimentos xenofóbicos, além do cinismo e da dupla moral (dois pesos e duas medidas) do acusado, Patrick Frei, que na época dos eventos era deputado cantonal do Partido Popular Suíço (PPS), de extrema-direita.
Sem revelar a identidade das vítimas, o Tages-Anzeiger publicou o depoimento assustador da companheira de Frei e o da filha da acusadora, ainda adolescente. Uma terceira vítima, identificada como a ex-esposa de Frei, foi estuprada por ele cerca de cento e quarenta vezes durante os treze anos de casamento, até 2021.
A criminalidade de Frei veio à tona numa noite de setembro de 2023, quando sua nova companheira o flagrou estuprando sua filha, de apenas quinze anos, em seu quarto, contíguo ao do casal, dentro da mesma casa. A mulher chamou a polícia imediatamente. Ao ser descoberto, Frei tentou, sem sucesso, inutilizar o disco rígido de seu computador........
