A crise hídrica e a seca de propostas
Por Sergio Ferrari - Em dezembro deste ano, será realizada uma conferência global em Abu Dhabi para buscar soluções para a crise hídrica. Enquanto isso, a humanidade atinge o fundo do poço e começa a usar suas reservas estratégicas de água.
O diagnóstico é alarmante, embora sua leitura ofereça nuances diferentes. Para alguns, todo o ciclo da água do planeta – que inclui mares, atmosfera e outras fontes de água doce ou potável – enfrenta uma "tensão". Para outros, é algo ainda mais cruel: o planeta começou a passar por uma "falência hídrica", nas palavras da Universidade das Nações Unidas, em seu mais recente relatório sobre o assunto. Não apenas a renda anual de água dos rios e da chuva foi gasta, mas também as economias milenares guardadas em geleiras, áreas úmidas e veios subterrâneos foram esvaziadas. O resultado são sistemas literalmente falidos: aquíferos compactados, lagos fantasmas, deltas afundando, todos sem capacidade de recuperação.
Há apenas alguns meses, os rios da Amazônia registraram seus níveis históricos mais baixos. Quase ao mesmo tempo, a Espanha foi brutalmente atingida pelas piores enchentes das últimas décadas, com um trágico lastro de destruição e morte. A crise climática causada pelo aquecimento global fez com que o ciclo hidrológico entrasse em um atraso sem precedentes. Não poderia ser diferente, já que o aquecimento dos mares quadruplicou dos anos 80 até o presente. Seu impacto direto em vastas áreas de gelo e glaciares não pode mais ser ignorado: massas de gelo derretendo e, como corolário, elevando o nível do mar. Segundo fontes científicas, um quarto da população mundial, principalmente em países de baixa e média renda, está exposta a riscos crescentes de inundações catastróficas.
Essa leitura da realidade fala da "conta cobrada pelo desperdício", ou seja, do preço que já está sendo pago pelo uso excessivo de água e de outros recursos naturais para responder a um sistema de produção e consumo que ultrapassa toda lógica do que é possível. O panorama é “desolador", enfatiza o relatório, com 75% da população mundial em países onde a água é escassa ou seu acesso é inseguro. Além disso, com mais da metade dos grandes lagos do planeta secando rapidamente e 2 bilhões de pessoas habitando terras que afundam devido à "superexploração" da água subterrânea. "Em 50 anos", conclui o relatório, "foram perdidas áreas úmidas equivalentes a toda a superfície da União Europeia".
Tal cenário implica consequências sérias, e as evidências são irrefutáveis: a crise não conhece fronteiras. A agricultura, que consome 70% da água doce, está no epicentro do colapso. Quando as plantações em uma região secam,........
