menu_open Columnists
We use cookies to provide some features and experiences in QOSHE

More information  .  Close

Virtuosas

20 0
03.09.2026

O horror contemporâneo já não precisa recorrer a monstros para produzir inquietação. Basta, muitas vezes, mostrar aquilo que reconhecemos: uma promessa de felicidade, uma comunidade que oferece pertencimento, alguém que afirma conhecer o caminho e sujeitos dispostos a abrir mão de parte de sua liberdade em troca da sensação de segurança. É desse lugar que parte Virtuosas, filme dirigido e roteirizado por Cíntia Domit Bittar, com estreia prevista para 23 de setembro de 2026, a obra converte um retiro feminino em um pequeno laboratório das formas contemporâneas de controle social, vigilância e captura da subjetividade.

No centro da narrativa está Virgínia, a líder carismática que ocupa, diante das participantes do retiro, uma posição de autoridade absoluta — uma espécie de deusa da virtude que sabe tudo, e é justamente esse saber que dá título ao filme. A psicanálise oferece um conceito preciso para pensar essa posição: o de sujeito suposto saber, o lugar atribuído a quem acreditamos possuir um saber capaz de responder àquilo que nos falta, não porque essa pessoa efetivamente saiba, mas porque nós acreditamos que ela saiba. Foi a partir desse conceito que conversei com Bruna Linzmeyer, que integra o elenco do filme, sobre sua entrada nessa cena — sobretudo por se tratar de uma atriz também marcada, no debate público, pela acusação de “identitarismo”, como se pertencer a uma identidade fosse por si só uma forma de suspeição.

Propus a ela uma inversão: se o mundo tem seus sujeitos supostos saber, gente como nós........

© Brasil 247