Os gênero que desafiam a universalização de “homem” e “mulher”
A diversidade das identidades de gênero constitui um fenômeno histórico, social, cultural, portanto, político, que não pode ser reduzido às categorias “homem” e “mulher”, tampouco compreendido exclusivamente a partir das classificações contemporâneas produzidas no Ocidente. Tem gente que acredita que o mundo é espelho de sua casa sem nunca ter saído dela. Em diferentes sociedades, povos e períodos históricos, existem sistemas próprios de nomeação e reconhecimento de experiências que atravessam gênero, corporalidade, espiritualidade, pertencimento comunitário e organização social.
O debate contemporâneo sobre diversidade de gênero exige, portanto, uma distinção fundamental: embora categorias como homem trans, mulher trans, pessoa não binária, agênero, bigênero e gênero-fluido tenham circulação internacional, elas não esgotam a pluralidade das experiências humanas. Ao lado dessas categorias, existem identidades culturalmente situadas, como travesti, hijra, muxe, Two-Spirit, fa’afafine, waria, meti, bissu e māhū, cujos sentidos não podem ser automaticamente traduzidos ou assimilados às classificações ocidentais em revisionismo histórico.
A própria Organização das Nações Unidas reconhece que pessoas trans podem identificar-se como homens, mulheres ou pessoas não binárias, além de utilizarem uma ampla variedade de termos culturalmente específicos, entre eles hijra, Two-Spirit, travesti, fa’afafine, muxe, waria e meti. O reconhecimento dessa pluralidade reforça um princípio essencial dos direitos humanos: a identidade de gênero deve ser compreendida a partir da autodefinição e do respeito às experiências sociais e culturais de cada sujeito. Não entender essa grande tem feito gente muito boa cair no engodo de unir lutas emancitorias ao sintagma identitarismo. Isso sempre me lembra mulheres que lutam por igualdade e dizem não ser feministas! A palavra que captura produz efeitos…
No vocabulário internacional contemporâneo, algumas identidades são amplamente utilizadas para descrever experiências relacionadas à identificação ou não identificação com o gênero atribuído no nascimento.
Entre elas estão as categorias de homem cisgênero e mulher cisgênero, utilizadas para designar pessoas cuja identidade de gênero corresponde ao gênero binário socialmente atribuído no nascimento. Já homem trans e mulher trans referem-se a homens e mulheres cuja identidade de gênero diverge ou expande o do sexo e gênero que lhes foi atribuído ao nascer. O termo pessoa trans pode funcionar como categoria ampla para diferentes experiências de gênero que não correspondem à designação original. Nesse conjunto, encontram-se também identidades como não binária, agênero, bigênero, gênero-fluido, demigênero, gênero queer, pangênero e outras formas de identificação.
Entretanto, é necessário evitar uma compreensão taxonômica rígida, as categorias não binárias, por exemplo, não constituem uma lista fechada. Uma pessoa pode identificar-se como não binária sem utilizar qualquer outro rótulo, assim como pode recorrer a termos específicos para descrever experiências particulares de seu gênero.
É sempre importante lembrar que a linguagem acompanha transformações sociais, culturais e políticas, por isso, as terminologias também variam no tempo, entre países, comunidades e indivíduos.
Identitários: as identidades culturais não são sinônimos universais
Um dos principais equívocos do debate público consiste em transformar identidades culturalmente específicas em simples equivalentes das categorias ocidentais de “homem trans”, “mulher trans” ou “não binário”.
Essa operação de tradução automática tem produzido apagamentos.
Hijra, no Sul da Ásia, por exemplo, não corresponde simplesmente à categoria de “mulher trans”. Trata-se de uma identidade e comunidade historicamente constituída em países como Índia, Bangladesh e Paquistão, podendo envolver diferentes experiências de gênero e corporalidade. No Paquistão, khwaja sira possui igualmente sentidos sociais e culturais específicos. No Nepal,........
