Nebulosa Marginal abre congresso em São Paulo com debate sobre mulheres, violência e os apagamentos da psicanálise
A história da psicanálise também é uma história de disputas por memória, reconhecimento e poder. Foi a partir dessa perspectiva que teve início, em São Paulo, o Fala Nebulosa Marginal 2026, encontro que reúne psicanálise, cultura e pensamento crítico para discutir as questões que atravessam a clínica e a sociedade contemporânea.
Na apresentação do primeiro dia, estive à frente da condução de toda a programação, da abertura ao encerramento. O encontro começou com um pocket show da cantora Patricia Marx, seguido por uma mesa dedicada à Policlínica Maria Lúcia e às experiências construídas em torno do trabalho do Instituto Nebulosa Marginal, potencializado também pela participação de integrantes da própria instituição.
A abertura foi conduzida por Renata Udler Cromberg, psicanalista do Instituto Sedes Sapientiae, cuja produção intelectual esteve entre as referências centrais das discussões do dia.
Mais do que recuperar uma história, o encontro propôs uma pergunta incômoda: o que acontece quando olhamos para a história da psicanálise procurando justamente aquelas mulheres que foram deixadas fora dela?
Gisèle Pelicot e a inversão do lugar da vergonha
Um dos debates mobilizados durante a mesa de abertura foi o caso de Gisèle Pelicot, que se tornou uma referência mundial no enfrentamento à violência sexual ao decidir tornar público o julgamento dos homens acusados de violentá-la enquanto ela estava inconsciente.
Sua decisão de não permanecer escondida deslocou o centro da vergonha. Em vez de recair sobre a vítima, a exposição pública passou a interpelar os autores da violência.
A expressão segundo a qual “a vergonha tem que mudar de lado” sintetiza esse deslocamento e permite à psicanálise pensar uma questão que ultrapassa a experiência........
